
A casa antiga… o meu lugar favorito. Onde eu conseguia sentir-me, inteiramente. Sabia porque tinha dito ''espero'' e não esperara, e também porque atravessava tantos perigos como se fosse uma criança levada pela mão e estivesse segura de que nenhum mal poderia acontecer-me, nunca.
Costumava ficar absorta, ocupada, a ouvir as nossas vozes misturadas, ecos vindos das paredes tão velhas, pensamentos meus, tudo em uníssono... Ou percorria as antecâmaras e os quartos, as salas, corredores e escadarias, exactamente como faz um fantasma no lugar amado, detendo-me nos cantos mais meus, lugares de mim. Era sempre uma coisa de ganhar e de perder.
Acho que pulsávamos juntas, a casa e eu. Nunca ali fui intrusa. Os reposteiros gastos mal ocultavam as janelas de vidros partidos, por onde o vento entrava, e voavam, como longos braços tacteando em busca de um corpo querido, envolviam-me em carícias; e o sussurro doce do soalho a ranger sob os meus passos era uma voz de amor, sempre.
Havia apenas um espinho, e era um espinho que nascia de mim, mas eu não sabia afastá-lo, não era capaz. Pensava demais naqueles que a casa amara muito antes de eu chegar, mais do que a mim... ou talvez não. Aquele lugar era tão eu e dava-se-me tanto. Tinha o desejo imenso e a impressão de ser ali muito bem vinda. Mas a dor permanecia, eu não podia minimizá-la, pois a sua origem estava nas coisas do passado, eram as coisas do passado que me assombravam, e gosto tanto de tudo o que já foi, que não conseguia, por isso, ser, e quase preferia ter sido. Fazer parte das memórias queridas! Por vezes pensava que o verdadeiro fantasma era eu e fugia, voltava aonde não sentia o desejo.
Esse era sempre um regresso difícil, doloroso, mesmo. De cada vez deixava para trás um pouco de mim, vinha sempre menos eu. Cada vez detestava mais a casa nova, a casa onde eu não queria morar, com todas as chaves que eram precisas para entrar, e quase me ouvia dizer ''não, não, não'' enquanto dava as várias voltas às fechaduras. Despia-me e metia-me na cama, sem tirar o leve odor a humidade da pele. Adormecia cansada e suja, e tinha sempre sonhos importantes, de que era incapaz de me lembrar.
© Fata Morgana