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4 de julho de 2008






















Quando me levantei, com gestos um pouco sonâmbulos mas obviamente disposta a sair do café, ele não pareceu surpreendido. Era como tactear o silêncio, ele sabia que eu precisava de entrar profundamente no silêncio, não fez um gesto para me deter. Despedimo-nos com acenos de cabeça quase imperceptíveis.
Assim que me vi no passeio comecei a andar muito depressa e dobrei a esquina, como se estivesse a fugir. Só então voltei a abrandar os passos, os gestos, os pensamentos. Fui para o jardim grande, para o relvado que fica debaixo da enorme árvore exótica, e sentei-me, muito quieta, à espera de sentir picadelas nas pernas. Pensei que as formigas talvez pudessem trazer-me de volta, porque estava perdida num lugar estranho, numa amálgama de páginas de muitos livros, e o olhar negro sem fundo com que eu os lera talvez não fosse meu, ou era e eu ainda não conseguia perceber como se tornara assim. Não queria pensar que sempre tivera uns olhos daqueles. Olhos de jusante, de encontrar mares escuros, encapelados.
A tarde ia tornar-se noite e eu não podia permanecer ali muito mais tempo, apesar do desejo louco de me deixar ficar fechada, impedida de fazer o que sabia que faria de seguida. Queria desesperadamente adiar. Mas passou um vigilante e disse qualquer coisa na minha direcção. Aquiesci e ergui-me devagar, peguei no meu livro, saí do jardim e cumpri os meus passos de condenada.
Uns vinte minutos depois tocava à campainha, sem outro sentimento que não o medo de ter deixado passar tempo demais.
Ele abriu-me a porta, não pareceu nada surpreendido. Não esboçou um gesto nem disse uma palavra, limitou-se a olhar-me com um sorriso que passava dos olhos dele para os meus. Náufragos, pensei. Agora somos ambos náufragos, e avancei um pouco, enquanto ele se afastava para eu passar ao interior da casa. Estava a despir o casaco quando a porta se fechou atrás de mim.
Pronto, cheguei. Eu sabia que era uma chegada. Voltei-me e ele pegou no meu casaco, como se lhe fosse uma peça muito familiar. Pendurou-o num cabide, contornou-me e começou a andar pelo corredor, certificando-se, num gesto de cabeça, de que eu o seguia, até entrarmos numa cozinha grande.
Finalmente o sorriso desceu-lhe aos lábios, abrindo uma pequena brecha no todo singular da situação e, na sua voz baixa, comunicou que comia pouco e não tinha nada de jeito em casa. Abraçámo-nos, como se essa fosse a melhor resposta. Misturámo-nos com avidez, num roçar de rostos e de lábios cheios de beijos. Disse-lhe segredos ao ouvido, não sei o quê, mas disse muitas coisas. Ele apertou-me mais, ele também sabe. Sabia muito melhor do que eu.

Abri o frigorífico, espreitei nos armários – amanhã tenho de ir às compras – e encontrei com que improvisar um jantar.
Preparei uma omeleta, cortei umas rodelas de chouriço, abri uma garrafa de vinho e foi a nossa primeira refeição juntos. Sem muitas palavras. Sim, quase não precisamos de palavras. Eu queria falar mas não era preciso e nem conseguia, era tudo demasiado intenso, emudecia!
Éramos quase desconhecidos mas, sem como nem onde, tínhamos estado juntos desde sempre. E encontrávamo-nos, por fim.

© Fata Morgana

A pintura é de William Blake