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30 de outubro de 2008


Imagem de Victoria Frances

Sou a paz dos outros. Daqueles que chamo os outros, apenas. Quantas vezes fico a ouvi-los descrever a calma e a serenidade que lhes transmito; contar como junto de mim se sentem mais tranquilos. E perguntam-me coisas, como se eu tivesse respostas e eu respondo como posso, mesmo sem poder.
Pasmo dessa paz que dou sem jamais perceber como será possível dar o que não tenho.
Dentro. Procuro no mais profundo ermo de mim mesma e não há.
Depois olho para os meus amores, os que são comigo desde sempre e para sempre comigo serão; aqueles que absorvo e em que me dissolvo, uma coisa e outra a um tempo... e tampouco neles vejo paz!
É esta maldição que me fustiga e atormenta.

© Fata Morgana

17 de outubro de 2008


A carta, escrevi-a de rajada. Foi fácil, bastou romper de leve a ponta dos dedos e deixar escorrer o sangue para o papel. Ficou lá tudo. Fiquei lá eu, inteira. Outras palavras que tivesse pensado não seriam tão autênticas; era exactamente aquilo que eu sentia, e que queria tanto dizer.

Reli-a. Chorei. Era tão eu, amortalhada numa folha de papel! Eu mesma, tão pequenina e tão valente, tão desprotegida e tão cheia de força. Parecia fácil escrever assim a verdade crua, estirada num fundo branco, pensei, enquanto metia as pontas dos dedos na boca, sentindo o sabor do sangue que o coração bombeara pelo meu corpo, para ir morrer ali, com a mesmíssima sinceridade com que, dentro de mim, correra cheio de sobressaltos. Como as lágrimas que não paravam de cair sobre as palavras traçadas a púrpura, que deviam secar, e elas não deixavam. A folha parecia-se cada vez mais com um desenho esquisito, de nuvens vermelhas e palavras que se desvaneciam. Informes se tornavam todas as mensagens importantes. Agora lembravam as vozes dos anjos que nos chegam como sons indecifráveis, quando na origem são tão nítidas!

Dobrei o papel e meti-o num envelope, onde escrevi o nome do destinatário. Talvez ele, mesmo assim, pudesse compreender. Prouvera a Deus que sim, pois estas verdades de sangue que já se exauriu, não poderei tornar a dizer. Esvaída, restam-me os gestos simples. Lamber o selo - de adocicada cola - e meter a carta na ranhura negra do marco do correio, que a engoliu.

Poisado no meu ombro, o corvo que não quis ser mensageiro segreda-me coisas suaves ao ouvido. Faz-me sorrir baixinho.

© Fata Morgana

12 de outubro de 2008


Gosto do que se evidencia escondendo-se, e quase sempre os meus olhos encontram imediatamente, seja pessoa ou coisa. Nasce em mim uma espécie de simpatia instantânea, e deixo-me ficar presa - como se de algum sortilégio -, fascinada pela atitude, que acho cativante. É cativante, pois seja quem for que se esconda naturalmente, não o faz senão por se sentir melhor assim, e é isso que me sugere mil-e-um motivos, é isso que me toma de encanto. Assalta-me o desejo de adivinhar... muito raramente o de me intrometer.

Todo este intrigante é quase sempre sedutor... O gato tão sossegado debaixo do carro; a flor pequenina e fresca, protegida pela erva; o pássaro calado na noite, quase tão negro como ela; alguém solitário no meio de muita gente; o lenço húmido no cesto da roupa para lavar; a lua velada; o rapaz que dança sozinho atrás da coluna de pedra, afastado da turba de dançarinos; até mesmo eu (se de repente noto que oh, hoje estou tão dentro!).

Ao contrário, falta-me logo a paciência para quem deliberadamente se evidencia fingindo esconder-se. Essa é uma forma bem consciente de manipulação psicológica. Uma coisa má de que me afasto desinteressada, porque só pode ser desinteressante.

© Fata Morgana

10 de outubro de 2008

Imagem de Olga Mink

Os gatos enlouqueceram. Têm o pelo eriçado e sopram, os corpos rentinho ao chão esgueirando-se por entre obstáculos invisíveis. Miam de um modo ameaçador, ou por vezes suplicante, e poderia parecer uma caçada imaginária - tão típica deles -, se não estivessem com as garras completamente expostas com o fim evidente de rasgar algo que de imaginário nada tem.

Observo-os. Respiro profundamente, com pena de não ser gato. Sinto-me como eles, sei porque estão assim. Eu estou igual. Também sinto as coisas que verdadeiramente povoam o lugar.

Queria correr de um lado para o outro, procurar o ponto de ataque mais seguro e, com o meu corpo, humano, aquela mesma esquiva graciosa poderia parecer-se imenso com um bailado (não conheço a Giselle dos gatos, por isso é que penso assim...). Queria usar a voz em várias inflexões de intimidação e defesa, sem uma só palavra. É uma bênção exclusiva dos animais, a inequívoca forma de expressão sem palavras. Tudo postura, som, olhar.

Eu tenho nos olhos a verdade, o brilho cru e absolutamente autêntico do que sinto. Mas penso... e baixo as pálpebras. Ou rasgo o olhar com um sorriso. Tenho véus e leques, luvas também... Oh, tantos adereços de ocultar. E uso-os, consciente de me atraiçoar a mim mesma.
Fica o murmúrio baixo, quase sopro, tão parecido com o dos gatos enlouquecidos. Só que mal se ouve, e posso murmurar-me inteira. Não há quem ouse colar o ouvido aos meus lábios!

© Fata Morgana

8 de outubro de 2008

Imagem de Liliana Sanches

Os passos e os gestos eram estranhos, não faziam sentido. Era como se seguisse as voltas complicadas de um morcego invisível, mas depois dobrava-se e balouçava os braços, como a sentir-lhes o peso, e afinal erguia-os, pois não pesavam nada, e parecia afagar recordações quase desvanecidas. Abria as mãos, de palmas voltadas para cima, qual pouso diurno de pirilampos, fazia movimentos gentis como se os não quisesse despertar. E erguia o rosto, de olhos fechados e sorriso indefinível, às vezes um ligeiro tremor nas pálpebras.

- Que fazes Morgana?

Ela não ouviu. Mas parou imediatamente, sentindo a presença. Deixou-se ficar muito quieta, de olhos fechados e mãos abertas. As pálpebras já não estremeciam.
De repente pareceu aborrecida. Encolheu os ombros com modos desabridos.

- Vai-te embora. Assim que chegaste a chuva foi-se!
- Não sejas louca, não estava a chover. Além disso, estás dentro de portas!

Ela abriu os olhos e encarou a criatura.

- Aqui chove quando eu quero, sabes? Só que a chuva não gosta de ti. Nem eu, por isso vai-te.


© Fata Morgana

5 de outubro de 2008

Imagem de Albert-Joseph Pénot


A mulher deitada na areia escura, os cabelos misturados no quase lodo. E o rio tão perto.
Ela ouve passos mas são apenas as folhas de outono a cair. Não há ninguém.
Os monstros feios farejam-na, há tanto tempo. Segredos escusados, porque os conhece, mesmo sem ter querido desvendá-los; palavras que não entende, apenas porque não quer, não quer, não queria... E medo. Um medo profundo, que vem precisamente do que conheceu sem vontade e também daquilo que entendeu, mesmo não querendo.
A total falta de nexo, quer no silêncio emprestado dos segredos, quer nas palavras com que cala as outras palavras que não queria. Coisas que a impelem a rebolar até ao rio e esquecer que sabe nadar. Como se não fosse a senhora das águas, como se pudesse afogar-se.
Não pode.

© Fata Morgana

3 de outubro de 2008


Finalmente passou a sexta-feira negra. Em dias como este é sempre tudo fora do tempo, fora do espaço, fora de mim. Mas não posso abstrair-me do pêndulo; tão perto; no fundo sem fundo, onde me dói mais.
Que a próxima vez demore muito...! Ou não haja.

© Fata Morgana

2 de outubro de 2008


A velha olhou à sua volta e viu que estava tudo fora do seu lugar, como ela gostava. Depois de tantos anos a pôr tudo nos devidos sítios, tinha as contas saldadas, podia dar-se a todos os luxos da arrumação bizarra que muito melhor lhe servia.
Respirou fundo, puxou pelo nariz enorme, a soltar o espirro teimoso que não queria sair - ah... que alívio! - e começou a dançar, primeiro devagarinho, a certificar-se de que os passos estavam todos errados, depois mais depressa, até parecer um pião. Rodopiava, rodopiava, causando uma movimentação cada vez maior no ar, quase um tornado. As coisas começaram a voar à volta da velha e ela ria-se, a saia comprida de roda a enfunar-se cada vez mais e mais, até que a fez voar a ela, tal e qual como um balão.
Quando as telhas se soltaram e o céu ficou aberto, ela começou a subir, causando espanto e um enorme alarido - de facto a cidade parou e todos ficaram a vê-la rodopiar por ares e ventos, com telhas, cafeteiras, compassos, fotografias, jarras, ovos, gatos, peças de roupa, livros, frigideiras, candeeiros, chapéus, colheres de pau e muitas outras coisas à volta dela, num turbilhão.
Ninguém a viu descer. A verdade é que nunca mais se soube dela. O único vestígio foi o despertador que caiu, com uma violência de meteorito, três dias depois daquela ascensão peculiar, e continuava a dar horas muito certas. Tê-lo-ia ela devolvido?
Que velha esquisita!

© Fata Morgana