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23 de Junho de 2009


The Rose Bower, John William Waterhouse

A Lenda da Rapariga Arrependida

Dormia abraçada a mim mesma, o mais enrolada possível no lençol e no edredon, que formavam uma espécie de casulo onde eu tentava sentir calor. Mas não o conseguia. Acordava gelada, apesar do Verão lá fora; apesar da cama ataviada para o Inverno rigoroso que havia dentro de mim. E constatava, invariavelmente, que tinha dormido apenas uma ou duas horas, que ainda tinha a noite pela frente. As noites demoravam sempre muito tempo a passar!
Desistia de dormir. Saía da cama e ficava a olhar para aquela casa que não me parecia a de sempre. Andava pelos vários compartimentos exactamente como um fantasma, escutando sons, revendo gestos, encontrando buracos que eu mesma tinha cavado ali e tentando, ainda, enchê-los - apesar de ser muito tarde para isso. Mas sentia-me noutra dimensão. Talvez ali os gestos fossem intemporais e viajassem até aos seus lugares certos, preenchendo os vazios do passado. Crente na força do querer, e mais ainda na do bem-querer, ia repondo todo o carinho, todo o amor, espalhando pela casa escura e fria uma imensa paixão.
Muito cansada mas insone, acabava sentada na cozinha com um baralho de cartas e uma chávena de chá, na tentativa de ocupar a cabeça com paciências infinitas. Incapaz de lhes prestar atenção, não conseguia terminá-las e ficava a olhar para as cartas que me sobravam nas mãos, lendo-as, interpretando-as. Esta Dama de Ouros devo ser eu... e este Valete de Ouros deves ser tu. E todas estas cartas entre o dois, deixa lá ver se têm um ar simpático?... Não tinham. E eram demasiadas.
Vestia-me e saía ao romper da aurora. Escolhia quase sempre um vestido vermelho, pois estava de uma palidez profunda e essa cor trazia-me uma ténue imitação do fogo que eu antes tinha no peito e me subia ao rosto, num rubor vivo, aceso. Andava um pouco pelas ruas, ao acaso, e este levava-me sempre até um enorme jardim onde havia um roseiral. Era ali o meu refúgio. Ali quase me era permitido não pensar. No meio de todas aquelas rosas tão perfeitamente belas, sentia-me invadida por alguma paz, como se tivesse morrido num dos bancos de pedra e as pessoas que passavam me fossem cobrindo de pétalas, com a maior naturalidade. Romanticamente, acreditava que pensavam para consigo, num suspiro misto de pena e deleite, "lá está ela, a rapariga arrependida!"... enquanto lançavam as suas pétalas, como quem cumpre o ritual antigo de alguma lenda triste.


© Fata Morgana

Publicado no Claro Obscuro em 30 de Novembro de 2004 (com um pequeno apêndice no final, que aqui foi excluído).

4 de Maio de 2009


Imagem de Tony Karp

O branco é negro nos dias tristes, nas caminhadas solitárias em dias cinzentos, confirmava uma vez mais, aconchegando ao corpo os alvos agasalhos.
As nuvens escuras, acasteladas, tornavam mais dramática a figura, emoldurando-a, e o longo vestido quente, o casaco muito comprido, pareciam materializar os gritos de pássaros distantes, ecoar ameaças de outras paragens... ou a promessa de gelo.
As mãos, cada vez mais frias, iam-se tornando azuis, semelhantes às pedras. E o reflexo nos vidros das janelas parecia tornar-se mais esguio. Tinha um andar estranho, quase irreal, como se deslizasse, e o nevoeiro cerrado abafava o ruído dos passos. O dia parecia ter criado a silhueta tão clara e isolada, como uma miragem. Não custaria a crer que desaparecesse de repente. Mas estava ali.

Não havia ninguém por perto, parecia que a cidade estava morta. Porém, sentia-se o olhar das coisas poisado na alvura quase despudorada da forma que evoluía bem depressa, embora parecesse fazê-lo em câmara lenta e como se não cansasse. Como se não deixasse anoitecer.
As narinas frementes inalavam o ar húmido, repleto de odores mórbidos e pouco conhecidos. Diurnos. As gaivotas, podia cheirá-las, tal e qual como as escutava, embora estivessem ocultas por um espesso véu de milhares de gotas de água. O sorriso fantasmagórico, que mal descerrava os lábios azuis, parecia dizer - sim, também consigo cheirar o medo.
Pressentida, sabia das pessoas escondidas nos lugares mais recônditos das suas casas, e que por detrás das cortinas das janelas, não havia ninguém a espreitar. Não queriam ver, tementes dos sortilégios. Muito menos ousariam fitar o abismo profundo no olhar contemplativo. Palavras, estavam fora de questão. Um temor ancestral, generalizado, deixava o mundo inteiro para a mulher de branco.

Finalmente parava. Era ali. Sempre fora ali. Já não existia a floresta, os caminhos isolados rasgando o frondoso arvoredo que se descerrava um pouco, junto ao cruzeiro há muito desaparecido. Mas o lugar era o mesmo.
Sabia que alguma coisa havia de acontecer. Sempre acontecera.
A mão azul havia de aflorar muito ao de leve o ombro de alguém que, julgando estar perdido, saberia o que era perder-se realmente.


© Fata Morgana

22 de Abril de 2009


Blue Sorceress (Autor desconhecido)

A mesa comprida, madeira escura de árvores antigas, estende-se à minha frente. Eu estou à cabeceira e não é o meu lugar useiro, se bem que goste dele... mas não o quero.
À minha volta o roxo e o negro, e alguns laivos de vermelho escuro. As minhas cores. Há ainda o branco, mas não está presente, ou antes, não se vê, enquanto cravo as unhas afiadas na própria mão rosada e tenra.
Os olhos procuram coisas de que não há memória, os lábios saciados fervem e desenham palavras esquisitas, que não se ouvem. Os gestos descansam na quietude imensa, dada a deslocação de todo o frenesim para o lado de dentro. Pareço realmente serena.
Há tanto espaço, um inominável espaço. As sombras movem-se e dão-me uma ideia vaga da dimensão maluca dos espaços. Apetece-me esquadrinhar todos os cantos... mas não quero.
Devagar... - murmuro, enquanto persigo os espectros furibundos com um olhar apenas trocista - Eu tenho tanto tempo...
Sorrio. E, como se um pouco triste, repito - Devagar...
E os gatos espreguiçam-se, com a vivacidade lenta dos gestos encantados que só os gatos fazem e eu conheço tão bem, e voltam a adormecer, enroscados. Ronrono, como eles, e não há ouvidos que me ouçam com estranheza.
Ergo-me, espreguiço-me também, e o meu corpo enche-se de estranhas energias, sinto-as em mim como cócegas que não importunam. Estou tão viva!
Vou pondo tudo no lugar comum, que nem por sombras é o lugar certo, cantarolando para dentro, e em cada coisa há um sentido oculto que apreendo, sem me perturbar, pois não chegou ainda o tempo.
Eu ando na terra exactamente como os peixes andam na água, deslizando suavemente, alheios à ideia excêntrica que se faz da tempestade.

© Fata Morgana

14 de Abril de 2009


Moon Dancer by W. Kathleen

Os teus olhos eram caminhos de esquecimento. Eu sentia-me criança, demasiado pequena para tanta imensidão, mas gostava de te fitar e perceber em mim a vertigem; o medo de cair no fundo escuro e, simultaneamente, a vontade de saber se seria capaz de não me perder, de permanecer lúcida. Acabava quase sempre por sorrir, demasiado consciente do meu sorriso tão aflito, e de que, a seguir, teria forçosamente de gritar. E então, antes disso, tudo mudava.
Os meus olhos enchiam-se de estrelas, de recordações, de risos e de lágrimas. Tudo o que estava preso, apertado num grande nó que me ficava na garganta, a tornar a voz feia e as palavras assustadas, desatava-se, vinha dançar-me nas clareiras do ser, debaixo do céu, do olhar. Ressuscita os meus pés, pedia-te, pois quero também dançar! Mas tu nunca o fizeste. Creio que não sabias que aquilo era uma dádiva e não um pedido. O tempo fazia-se escasso, havia muita gente, muitas coisas mais concretas do que aquele meu aparente capricho, um pouco melodramático.

Os maiores tesouros passam quase sempre por ser pequenas bagatelas sem importância alguma. É fácil adiá-los até se tornarem muito longínquos, já só remotamente conhecidos por tradição oral. Contos de fazer sorrir quem os não viveu.
E parece-me ouvir uma voz lá muito adiante no tempo, contar:

Era uma vez uma rapariga que tinha os pés mortos...


© Fata Morgana

3 de Fevereiro de 2009


Pintura de Nancy Farmer

Que a Bela era uma princesa linda como os amores (esta expressão perdeu a actualidade...) todos sabemos. Que era inteligente e prendada, também, porque algumas Fadas boas estiveram no seu baptizado e não foram avaras, fadaram-na mesmo, com os seus dons. Depois, sabemos que dormiu cem anos por causa de uma Fada má que entrou na festa sem convite, oferecendo-lhe o sono da morte quando completasse quinze anos. Não havia talão de troca mas, por sorte, uma Fada que ainda não tinha oferecido nada conseguiu trocar o presente feio por outro melhor.
Sobre a índole da Bela, não temos dúvidas: era boa. A respeito do seu comportamento não hesitamos: portava-se bem.
Mas ignoramos a sua verdadeira natureza e que tipo de amor-de-menina seria, pois nada transparece relativamente ao seu feitio (aqui, eu diria feitiozinho). Não sabemos se lhe foi fácil a perfeição ou se travava batalhas com um espírito voluntarioso que lhe fosse inato.
Nada nos foi dito para lá das qualidades basilares de uma boa-menina. Desconhecemos completamente a personalidade da Bela, e o mais natural é que tivesse vários traços e propensões por fadar, pois só um grosso batalhão de Fadas boas poderia providenciar tudo logo ali no baptizado.
Portanto não fazemos ideia se a Bela era oportuna e espirituosa ou se era uma chata; se preferia andar de bibe na floresta ou sempre de vestido pelos salões; se era frágil e dócil, se viva e um bocadinho mordaz; se a Alegria recebida no berço se traduzia sonoramente, em risos, ou se era uma rapariga tranquilamente longínqua, de pensamentos ridentes... Nunca mais acabaria de enumerar as coisas que não sabemos acerca da Bela.
Poupemo-nos, ora, o que eu quero é chegar ao beijo. O beijo é que interessa, ao fim dos cem anos, pois!
Ah, deve ser uma maravilha estar a dormir muito sossegada, a dormir profundamente, aparecer um príncipe - não, não serve qualquer um, o beijo só presta se for dado por aquele que é o tal, e na história é um príncipe, talvez porque a Bela não tinha nenhum tal -, e zumba!, ferrar-nos um beijo. Bem... zumba, não... E ferrar também não...

O beijo tem de ser absoluto. Há-de trazer o enlevo assombrado de quem Vê a Beleza pura, nunca antes suspeitada. Será um beijo delicado mas forte, um beijo cheio de fome e de sede que não se quer matar jamais; um beijo de posse e desapego; um beijo... BOM! Que não se distingue dos sonhos mais lindos.

E nada me espanta, se a Bela por acaso for dorminhoca - não é defeito! -, que ela se aconchegue mais deliciosamente entre os fofos colchões e cobertores, suspire de puro deleite, e se volte para o outro lado, a dormir outros cem anos.

© Fata Morgana

23 de Janeiro de 2009


Foto de Kudra

Todas as noites a canção de embalar é desafinada e o sonho doido.
Todas os dias o dia é grande demais... longe demais... e eu muito pequena para tanta distância, tanto andar. Mas não refilo e faço-me maior, faço-me lesta, e faço-o.

Os passos cumprem-se e a vida corre e o buraco cava-se.

Eu não sei quem segura os fios, não sei quem fez as personagens.
Não imagino, sequer, porque será que digo sempre o que sinto (mesmo que até a mim soe estranho); porque será que me sinto tão diferente, aqui no meio... Reconheço alguns afins, mas noutras plataformas, quase sempre. Nunca posso fazer número... quase nunca.

Ora! Sou forte. Sou eu! Não é por mim que tenho de dar contas? Nesse caso... tenho tudo!


© Fata Morgana