15 de Abril de 2010
Para o HornedWolf
3 de Março de 2010
O poço é dentro e senti-lo é muito mais forte do que vê-lo. Eu não tenho vertigens, gosto da profundidade, atrai-me o que se oculta onde não chega a luz. O meu olhar é rasgado, como de cega, e não preciso da luz.
São tão poucas as coisas que, sob a luminosidade clara dos dias enormes, me prendem o olhar. Eu fujo-lhes, como das palavras. Essas trazem espinhos e medos como nenhuma escuridão. Por isso também não ouço, também me calo, sim, passo por arredia, por vazia ou por antipática. Porém, só queria um silêncio partilhado à beira do abismo.
E gosto de muita gente, oh gosto de demasiadas pessoas, mas quase todas lançam pedras para tentar descobrir quão fundo é o poço, e dói tanto a curiosidade com que as vão atirando, cada vez maiores, como se não fosse a mim. Talvez não saibam que magoa...
Sou muito mais funda do que saliente.
Por vezes, durante o sono, sinto que vou muito longe, quase como se chegasse, e há alguém que me recebe. O meu Anjo, talvez... É pura delícia, mas volto sempre com escassos fragmentos de memória da experiência.
E não conheço muitos dos monstros que hão-de aparecer onde nunca ainda cheguei.
É por tudo isto que tenho andado calada.
© Fata Morgana
Também publicado n'O Bar do Ossian
7 de Janeiro de 2010

Desconheço o autor da imagem :(
Ao contrário do que normalmente acontecia, não era capaz de refazer os detalhes, que cada vez mais se esfumavam, até desaparecerem por completo.
Deixou-se ficar imóvel, franzindo com força o sobrolho. Decorridos alguns minutos, virou-se devagar e ali estava ela, voltada para o outro lado. Tinha os cabelos espalhados na almofada e um ombro destapado. Sorriu levemente ao ver todos aqueles sinais pequeninos que pareciam formar constelações escuras sobre a pele muito branca, e sentiu um alívio enorme, inexplicável, pois ela acordava ao seu lado todas as manhãs. Mas a estranheza persistia, a sensação de estar só.
Estendeu a mão para o ombro nu e puxou-a, de maneira a fazê-la voltar-se. Precisava de a trazer, de a ouvir dizer - o que é isto? -, a pergunta indefinida que habitualmente balbuciava, no tom perplexo de não reconhecer ou gostar de coisa alguma do que via. Ficava com uma expressão muito triste até focar o olhar no dele. Só então começava a perceber o lado de cá, e também a sorrir.
Mas nessa manhã, quando a voltou, ela já tinha os olhos abertos.
Uns olhos infinitos, os olhos do seu amor, da rapariga que outrora o seguia pelas ruas e ele fingia não notar, para que ela nunca mais parasse de o fazer. Que o espiava um bocadinho e comprava livros iguais aos dele, e ele chegara a encomendar dois, quando eram raridades e sabia ser pouco provável que ela encontrasse um segundo exemplar. Que frequentava os seus cafés e bares, simulando acasos, tal como ele simulava atrasos, para que às vezes ela chegasse primeiro e não se adivinhasse descoberta. Tinha medo que ela deixasse de cumprir aqueles rituais que os aproximavam tanto, criando uma intimidade funda que ambos percebiam sem compreender, e era tão esquisita entre dois desconhecidos.
Ela sentia e ele sabia que tudo aquilo eram gestos de cumprir destinos... E um dia ela bateu-lhe à porta de casa e percebeu que era esperada. Sim, há tempos que a esperava! Sabia que estavam a caminhar para aquele único ser em que, juntos, se vinham tornando. Queria isso. Yes, you will be my fill.
Com o passar do tempo ela tornara-se mais silenciosa, mais contemplativa; quase invisível, quase rarefeita. Como se fosse o fantasma de si mesma. Na realidade, era uma legião de fantasmas, mas nenhum o dela. Era tão próxima, fora tão esperada... Os fantasmas dele conheceram-na imediatamente, e amaram-na. Não a largaram e apossaram-se dela, que os recebera lentamente... mas também com uma estranha avidez.
Mas nessa manhã ali estava ela, tal como fora antes de se apaixonar pelos fantasmas dele. Tão autêntica, apesar do olhar parado que o não fitava e de uma certa quietude estranha... Why do you sleep so still?
Acabou por se render, pois o combate que travava era desigual... oh, absolutamente desigual! Ela fora-se mesmo embora. Estava morta.
© Fata Morgana
Adoro a versão dos And Also the Trees!
My Lady d'Arbanville, why do you sleep so still?
I'll wake you tomorrow
And you will be my fill, yes, you will be my fill.
My Lady d'Arbanville why does it grieve me so?
But your heart seems so silent.
Why do yoy breathe so low, why do you breathe so low?
My Lady d'Arbanville you look so cold tonight.
Your lips feel like winter,
Your skin has turned to white, your skin has turned to white.
I loved you my lady, though in your grave you lie,
I'll always be with you
This rose will never die, this rose will never die.
By Yusuf Islam (Cat Stevens)
27 de Novembro de 2009
E, no que respeita a Héloise, a beleza importa pouco. O que ela tem de especial é outra coisa, é ter no peito um coração. Um coração de verdade, que bate muito forte, que se sobressalta, que se aperta, que às vezes enlouquece e vibra. Um coração que reage a penas e alegrias, que conhece a misericórdia, o perdão, o arrependimento; que faz Héloise rir e chorar, fugir e voltar, e que às vezes também se fecha e endurece, quando ela se sente profundamente zangada ou triste. Não é uma víscera, como aquela que possuem os actuais mutantes humanos. É um coração antigo, obsoleto, uma coisa da qual hoje quase todos riem e fugiriam a sete pés se não tivessem a certeza de que não existe qualquer perigo de contágio.
Com uma coisa assim tão rara, Héloise não se parece nada com a grande maioria das outras pessoas e estas pouco se identificam com ela. Talvez por isso, ela sempre gostou de se esconder e ficar sossegada, debruçada no seu poço escuro, a afagar as sombras dos pensamentos que traz quase sempre no olhar. Claro que se sente um bocadinho só, mas não se importa muito. Custa-lhe menos suportar a solidão do que a confusão e os enredos das actuais pessoas, e de longe lhes prefere o rumorejar das árvores, as vozes dos pássaros, o lamento doce da chuva, o estrondo dos trovões. Adora animais e estes facilmente a seguem para todo o lado, coisa de que se orgulha bastante, embora não lhe importe mesmo nada o que as pessoas pensam dela.
Héloise costuma dizer que nasceu fora do seu tempo, que pensa, sente e age como uma mulher medieval. E de facto ela faria muito mais sentido entre os antigos Bretões. Ou então junto dos visigodos ou dos ostrogodos... Esta questão - onde a colocar? - põe-se em termos geográficos, não de épocas e costumes.
Porém, ela nasceu no tempo dos consumismos estapafúrdios, dos meios audio-visuais prolixamente soberanos, do hedonismo medonho. E do individualismo. Mas um individualismo sem lugar para eremitas como ela, sem lugar para a solidão boa.
Já nem sequer há povos, apenas grupelhos, entre os quais a paz só dura enquanto as conveniências de cada um não se chocam com as dos outros. Também já não se sofre, porque todos estão embotados. Uns pelas tecnologias de ponta. Outros porque são intelectuais, mas não no sentido fantástico em que o foi Abélard, e sim no de uma tendência doentia para a criação e amamentação de ludotecas pensantes. Por isso Héloise esconde-se mais do que nunca.
Sabe que estes são tempos de cegos que guiam outros cegos. E, se é quieta e silenciosa, está muito longe de ser estúpida, e detesta as abominações destes tempos que nunca serão os seus. Foi tudo isto o que o rapazito viu. E foi por isso que a achou inacreditavelmente bela!
© Fata Morgana
21 de Outubro de 2009
Os pontos luminosos aparecem muito para lá do véu das pálpebras apertadas e trémulas. Luzes que não guiam, entontecem, porque estão longe e em movimento acelerado. E perco o pé, perco o equilíbrio, como se estivesse mergulhada num líquido estranho, parecido com aquele, amniótico, em que quase me afoguei quando estava para nascer (eu nasci quase morta, decidiram reanimar-me à bordoada e quase me lembro de não querer).
Seguir as luzes... é vertiginoso, o estômago fica embrulhado e eu suspensa mas também submersa, demasiado solta. Vulnerável. Pronta para mim mesma. Chegada a um céu negro, privado, e na estranhíssima via láctea que se me depara, sou como um astronauta sem nave que o resguarde, e ninguém sabe que estou perdida no espaço. Não há "Houston, we have a problem" que me safe, ninguém me ouve.
Sempre gostei dos mundos que ficam para lá das pálpebras. Sinto que é lá que, afinal, me encontro inteira, puríssima, hiper-viva. Nas imagens-relâmpago, vivo vidas inteiras; tenho encontros inesperados que, num ápice, me revigoram - estranhos abraços curativos que me envolvem para logo me largar, sem compromissos, nem pena, nem saudades. Não existem laços, nada que prenda. Permaneço solta, quero seguir sempre, vogar.
Mas não consigo prolongar demasiado a experiência. O frio trás-me de volta. É o frio que me impede de ser a rainha das estrelas que vejo nesse breu.
© Fata Morgana
4 de Agosto de 2009

Desconheço a autoria da imagem
Tinha pousado nos joelhos um livro com as páginas todas por voltar. Não podia ler, estava debruçada para dentro, para o fundo do poço escuro, e os monstros estavam todos lá, ocultos. Sabiam que os espiava e que não podiam, ainda, assustar-me. Não tinham pressa. O tempo estava parado. Era preciso que o pêndulo retomasse o seu movimento absurdo e eu recomeçasse a mexer-me sem resquícios de sonambulismo. Teria de ser realmente eu, para os meus monstros poderem assustar-me.
O escuro acabou por me chamar a atenção. Era a noite, que não chegara de um modo fluido e gradual, antes acontecera como uma brusca mudança de cenário. Da mesma forma ele estaria de volta. Ergui-me, acendi a luz do candeeiro de pé e arrumei o livro numa das estantes.
A biblioteca era o meu lugar favorito. Era gémea da minha... ou antes, era uma irmã mais velha e mais sábia, mas muito parecida. De repente tive saudades da minha própria biblioteca e percebi que também sentia a falta da rapariga que o seguía e comprava os mesmos livros que ele. Era como se não tivesse sido eu; como se eu fosse a que vivia do outro lado do espelho dela e lhe tivesse usurpado a realidade. Talvez a tivesse deixado presa para poder viver com ele. Ela não saberia viver ao lado daquele homem. Claro que não saberia, ela era demasiado real. Teria visto os monstros no fundo do poço, conhecê-los-ia. Quereria ver o poço dele, também, e perguntaria coisas a respeito dos seres que o habitassem. Eu preferia ignorá-los, matá-los com silêncio. E eles não morriam. Talvez eu devesse chamá-la, devolver-lhe o que só ela conquistou e eu roubei.
- Oh, estás aqui tão quietinha... - ele sorria, a caminho do meu beijo.
- Sim, esqueci-me das horas.
- E de comer também, claro.
Concordei. Era verdade que só tinha comido fruta e bebido café, logo de manhã. O ralhete dele era encantador... e não me era dirigido. Pertencia a ela, era mesmo o tipo de coisa que sempre lhe tinham dito a ela, não a mim. Eu não existia. Não tinha monstros. Ou talvez fosse o maior dos monstros dela e portanto, de um modo negro, também lhe pertencia.
Nessa noite não pude dormir. Assim que ele mergulhou no sono levantei-me e andei pela casa - a casa deles, onde ela nunca pudera entrar - a casa onde os fantasmas esperavam por ela e não por mim. É impossível enganar os fantasmas.
Parei em frente a um espelho e olhei-me, tacteando o rosto como se fosse cega, percebendo que era igual ao dela, mas mais feio, mais tocado, marcado por uma ausência de fogo. Forcei-me a sorrir. Ficava mais parecida. Como se me ocultasse atrás de um véu e não se notassem as diferenças.
Voltei ao quarto, muito devagar, peguei nas roupas que deixara pousadas numa cadeira, vesti-me, e olhei para o homem adormecido, tão sozinho. Oh, ele também sabia! Lembrava-me da expressão dele no dia em que abrira a porta para ela entrar... e entrei eu. Quanto tempo teria passado até se tornar evidente? Era por isso que ele estava sozinho.
Saí para a rua e voltei para minha casa - a casa dela. Tinha de lhe dizer que se apressasse, que teria de estar a dormir tranquilamente ao lado dele quando chegasse a manhã.
© Fata Morgana

Desconheço a autoria da imagem
Fui eu a que brotou
quase sozinha.
Semente pequenina e improvável
Num meio hostil de pedras e ruínas
Cheguei
chorei sofri
estendi raízes.
Árvore frondosa
aqui estou
A tua sombra fresca
o ninho teu
Luz refractada no orvalho doce
Com que me vais regando
as cicatrizes.
© Fata Morgana
1 de Agosto de 2009
Tenho força. E tenho frio. Sinto-os. E o silêncio, só meu, é o único lugar que verdadeiramente me protege.
© Fata Morgana
6 de Julho de 2009

Arachne, de Susan Seddon Boulet
Era um amor esmagado
nos braços que o faziam,
sufocado nos beijos que mordiam.
Fulminante e louco,
desenhava a fio de punhal
com sangue aos borbotões,
(tão pouco).
Era um amor carnívoro,
que descrevias
como quem conta a um cego
o mapa que ele imaginou.
E o meu olhar aberto tacteava
com medo dos contornos improváveis,
(que sentia).
© Fata Morgana
23 de Junho de 2009

The Rose Bower, John William Waterhouse
Dormia abraçada a mim mesma, o mais enrolada possível no lençol e no edredon, que formavam uma espécie de casulo onde eu tentava sentir calor. Mas não o conseguia. Acordava gelada, apesar do Verão lá fora; apesar da cama ataviada para o Inverno rigoroso que havia dentro de mim. E constatava, invariavelmente, que tinha dormido apenas uma ou duas horas, que ainda tinha a noite pela frente. As noites demoravam sempre muito tempo a passar!
Desistia de dormir. Saía da cama e ficava a olhar para aquela casa que não me parecia a de sempre. Andava pelos vários compartimentos exactamente como um fantasma, escutando sons, revendo gestos, encontrando buracos que eu mesma tinha cavado ali e tentando, ainda, enchê-los - apesar de ser muito tarde para isso. Mas sentia-me noutra dimensão. Talvez ali os gestos fossem intemporais e viajassem até aos seus lugares certos, preenchendo os vazios do passado. Crente na força do querer, e mais ainda na do bem-querer, ia repondo todo o carinho, todo o amor, espalhando pela casa escura e fria uma imensa paixão.
Muito cansada mas insone, acabava sentada na cozinha com um baralho de cartas e uma chávena de chá, na tentativa de ocupar a cabeça com paciências infinitas. Incapaz de lhes prestar atenção, não conseguia terminá-las e ficava a olhar para as cartas que me sobravam nas mãos, lendo-as, interpretando-as. Esta Dama de Ouros devo ser eu... e este Valete de Ouros deves ser tu. E todas estas cartas entre o dois, deixa lá ver se têm um ar simpático?... Não tinham. E eram demasiadas.
Vestia-me e saía ao romper da aurora. Escolhia quase sempre um vestido vermelho, pois estava de uma palidez profunda e essa cor trazia-me uma ténue imitação do fogo que eu antes tinha no peito e me subia ao rosto, num rubor vivo, aceso. Andava um pouco pelas ruas, ao acaso, e este levava-me sempre até um enorme jardim onde havia um roseiral. Era ali o meu refúgio. Ali quase me era permitido não pensar. No meio de todas aquelas rosas tão perfeitamente belas, sentia-me invadida por alguma paz, como se tivesse morrido num dos bancos de pedra e as pessoas que passavam me fossem cobrindo de pétalas, com a maior naturalidade. Romanticamente, acreditava que pensavam para consigo, num suspiro misto de pena e deleite, "lá está ela, a rapariga arrependida!"... enquanto lançavam as suas pétalas, como quem cumpre o ritual antigo de alguma lenda triste.
© Fata Morgana
Publicado no Claro Obscuro em 30 de Novembro de 2004 (com um pequeno apêndice no final, que aqui foi excluído).





