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21 de outubro de 2009


Imagem de Kiyokichi Tanaka

Desde criança que tenho a mania de fechar muito bem os olhos, e ver. Ver!, não apenas olhar.
Os pontos luminosos aparecem muito para lá do véu das pálpebras apertadas e trémulas. Luzes que não guiam, entontecem, porque estão longe e em movimento acelerado. E perco o pé, perco o equilíbrio, como se estivesse mergulhada num líquido estranho, parecido com aquele, amniótico, em que quase me afoguei quando estava para nascer (eu nasci quase morta, decidiram reanimar-me à bordoada e quase me lembro de não querer).

Seguir as luzes... é vertiginoso, o estômago fica embrulhado e eu suspensa mas também submersa, demasiado solta. Vulnerável. Pronta para mim mesma. Chegada a um céu negro, privado, e na estranhíssima via láctea que se me depara, sou como um astronauta sem nave que o resguarde, e ninguém sabe que estou perdida no espaço. Não há "Houston, we have a problem" que me safe, ninguém me ouve.

Sempre gostei dos mundos que ficam para lá das pálpebras. Sinto que é lá que, afinal, me encontro inteira, puríssima, hiper-viva. Nas imagens-relâmpago, vivo vidas inteiras; tenho encontros inesperados que, num ápice, me revigoram - estranhos abraços curativos que me envolvem para logo me largar, sem compromissos, nem pena, nem saudades. Não existem laços, nada que prenda. Permaneço solta, quero seguir sempre, vogar.

Mas não consigo prolongar demasiado a experiência. O frio trás-me de volta. É o frio que me impede de ser a rainha das estrelas que vejo nesse breu.

© Fata Morgana