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22 de abril de 2009


Blue Sorceress (Autor desconhecido)

A mesa comprida, madeira escura de árvores antigas, estende-se à minha frente. Eu estou à cabeceira e não é o meu lugar useiro, se bem que goste dele... mas não o quero.
À minha volta o roxo e o negro, e alguns laivos de vermelho escuro. As minhas cores. Há ainda o branco, mas não está presente, ou antes, não se vê, enquanto cravo as unhas afiadas na própria mão rosada e tenra.
Os olhos procuram coisas de que não há memória, os lábios saciados fervem e desenham palavras esquisitas, que não se ouvem. Os gestos descansam na quietude imensa, dada a deslocação de todo o frenesim para o lado de dentro. Pareço realmente serena.
Há tanto espaço, um inominável espaço. As sombras movem-se e dão-me uma ideia vaga da dimensão maluca dos espaços. Apetece-me esquadrinhar todos os cantos... mas não quero.
Devagar... - murmuro, enquanto persigo os espectros furibundos com um olhar apenas trocista - Eu tenho tanto tempo...
Sorrio. E, como se um pouco triste, repito - Devagar...
E os gatos espreguiçam-se, com a vivacidade lenta dos gestos encantados que só os gatos fazem e eu conheço tão bem, e voltam a adormecer, enroscados. Ronrono, como eles, e não há ouvidos que me ouçam com estranheza.
Ergo-me, espreguiço-me também, e o meu corpo enche-se de estranhas energias, sinto-as em mim como cócegas que não importunam. Estou tão viva!
Vou pondo tudo no lugar comum, que nem por sombras é o lugar certo, cantarolando para dentro, e em cada coisa há um sentido oculto que apreendo, sem me perturbar, pois não chegou ainda o tempo.
Eu ando na terra exactamente como os peixes andam na água, deslizando suavemente, alheios à ideia excêntrica que se faz da tempestade.

© Fata Morgana

14 de abril de 2009


Moon Dancer by W. Kathleen

Os teus olhos eram caminhos de esquecimento. Eu sentia-me criança, demasiado pequena para tanta imensidão, mas gostava de te fitar e perceber em mim a vertigem; o medo de cair no fundo escuro e, simultaneamente, a vontade de saber se seria capaz de não me perder, de permanecer lúcida. Acabava quase sempre por sorrir, demasiado consciente do meu sorriso tão aflito, e de que, a seguir, teria forçosamente de gritar. E então, antes disso, tudo mudava.
Os meus olhos enchiam-se de estrelas, de recordações, de risos e de lágrimas. Tudo o que estava preso, apertado num grande nó que me ficava na garganta, a tornar a voz feia e as palavras assustadas, desatava-se, vinha dançar-me nas clareiras do ser, debaixo do céu, do olhar. Ressuscita os meus pés, pedia-te, pois quero também dançar! Mas tu nunca o fizeste. Creio que não sabias que aquilo era uma dádiva e não um pedido. O tempo fazia-se escasso, havia muita gente, muitas coisas mais concretas do que aquele meu aparente capricho, um pouco melodramático.

Os maiores tesouros passam quase sempre por ser pequenas bagatelas sem importância alguma. É fácil adiá-los até se tornarem muito longínquos, já só remotamente conhecidos por tradição oral. Contos de fazer sorrir quem os não viveu.
E parece-me ouvir uma voz lá muito adiante no tempo, contar:

Era uma vez uma rapariga que tinha os pés mortos...


© Fata Morgana