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23 de dezembro de 2008


Edição gráfica sobre fotos de Brigitte e Annie

Talvez tenha chegado a hora de iniciar os rituais, todos os rituais, pois os meus labirintos internos estão completamente alerta.

Comecei por pintar o rosto com cinza. Rasguei a roupa. Fiz trémulos de voz e exaltei-me a ponto de imitar os gritos dos pássaros. Ri, carpi, langui, enchi-me de festões e usei vestidos brancos, virginais. Depois cobri-me de negro e, logo a seguir, de roxo: senti-me sempre nua.
Segui a estrela e exultei; mas depois lembrei-me... As mãos crisparam-se-me e baixei os olhos, esboçando os passos de uma cadenciada dança da morte e depois, teve de ser, fiz a da chuva, e também um improviso meu: talvez assim fosse capaz...
De tudo quanto tinha fiz oferendas. Também saltei fogueiras, queimei incenso e ervas, meditei. Ofereci em sacrifício avezitas inocentes para me purificar: senti-me suja.
Banhei-me no Ganges, percorri a Terra Santa e desci aos infernos com um alforge de água fresca, para matar a sede aos danados: senti-me vã.
Li e reli os Livros Sagrados, e também muitos profanos. Citei alguns deles com fervor: senti-me muda.
E tudo quanto tentei me foi tornando mais cansada.
Acabei por fechar os olhos e mantê-los assim: bem fechados.
A criança lá estava, eu via-a perfeitamente e podia senti-la, no meu silêncio interno. Estava quietinha e dormia com um sorriso.
Porque não sou inspiradora e permaneço incapaz de a trazer para o lado de fora...?

© Fata Morgana