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23 de setembro de 2008


Amamos mais o nosso próprio desejo do que o ser desejado.

Vivemos tempestades de poder e sacrifício.
Imensos, ínfimos dentro de nós, suplantamos o EU e tornamo-nos absolutos, iguais à mãe-terra, ao pai-mundo. Maravilha que dói! Magoa a centelha humana que fica e se encolhe dentro de nós, mas só sentimos que dói quando voltamos.

Quando voltamos estamos sempre a sós com essa dor, que se torna avassaladora, porque o resto era uma identidade momentânea, animada pelo desejo. Mas ela renasce. Renasce assim que desejarmos e nos transformarmos no guerreiro poderoso e audaz. E na luta, travada até às últimas consequências, sem tréguas, pouco importa que sejamos o vencedor, que conquista, ou o vencido, que se entrega à rendição. Não é gloriosa a primeira, e a segunda doce? Não são deliciosas, ambas? Oh, sim... sim! Por isso amamos aquele que vencemos e também o que nos vence.

Há sempre sangue no amor quando a espada é o desejo e o espírito um guerreiro.

Eu procuro sempre acertar no coração, exactamente porque a mim só um golpe em pleno coração vence. Isso muda tudo e já não quero guerrear, mas apenas contemplar, ser contemplada; conhecer, ser conhecida. Coisas que se cantam em silêncio, ou dançam com gestos de rosácea, e se cravam muito, muito fundo. Para lá do desejo, mas com ele...


© Fata Morgana

15 de setembro de 2008



Eu era uma criança velha. Trouxeram-me à força, com ventosas, porque eu não queria nascer, não dei o grito porque não respirei. Estava morta. Não queria vir para aqui, não era o meu lugar. Mas, com muito esforço, reanimaram-me. E o resultado foi eu começar a chorar: Alívio para quem assistiu. Não para mim.
Conta a minha mãe que chorei 10 meses, um choro triste que a impressionava. Não era fome nem sede, não era xixi, as gotas para as dores de barriga típicas de bebé não me faziam parar. O mal estar era moral, eu chorava porque não me tinham deixado ir embora. Tenho a certeza.
Essa pena acompanhou a minha infância, lembro-me de preparar malinhas de brincar, mas prepará-las a sério, para me ir embora. Depois de prontas, não sabia o que fazer, desconhecia o caminho.

"O amor é a coisa mais importante" - descobri isso aos três anos e tive medo de nunca o encontrar. Sentia-me pequena e indefesa, sobretudo sozinha, e não imaginava como havia de chegar ao amor ou ele a mim. Também não sabia esse caminho, apenas sabia amar, sem ter a noção de que esse era, em si mesmo, um verdadeiro caminho.

Depois o tempo passou. Amadureci, ou reaprendi a maturidade. E agora sou a mesma criança velha que sempre fui, mas cansada e incapaz de fazer as malas, por causa das coisa boas que me acontecem. Sozinha, como quando me esfolaram a cabeça com as ventosas, ainda cheia de lágrimas que às vezes mostro e perturbam toda a gente, como se ver chorar fosse mais desconfortável do que ver rir. E sempre certa - cada vez mais! - de não ser daqui.

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11 de setembro de 2008

As coisas caladas que eu sinto chegaram com os primeiros sons da manhã. Lentamente percebi que já não estava a sonhar, que elas me despertavam persistentes na vontade de que lhes prestasse atenção. Sentimentos vivos, coisas de gritar bem fundo no silêncio, de gesticular quieta.
E a vontade de contrariar. Abrir as portadas e ir à varanda e soltar na voz o chorrilho de incertezas, ora para os transeuntes madrugadores, ora para o céu de um cinzento claro. A incerteza nasce no ponto ínfimo que fica precisamente no cruzamento de um bem com um mal. É um ínfimo crucial, portanto.

E deixo-me ficar absorta a tomar a minha chávena de café enquanto reparo, uma vez mais, como os anjos e os demónios se parecem tanto.

© Fata Morgana


8 de setembro de 2008

Imagem de Alex (a lápis aguarela)


Falando comigo mesma a ocultas de mim, sem realmente me escutar enquanto me mexo nos dias que se esboçam como arabescos complicados que me absorvem a atenção, vou dando os passos que objectivamente desenrolam as horas, mas os gestos, esses são de sentir. Manifesta discrepância do ser e do estar.

Passei pelos cumes de neve com mãos nuas de afagar pássaros e flores do estio, como se as não tivesse roxas; desenhei uma cantilena lábil e funesta precisamente na estação do riso; adormeci e tive pesadelos enquanto revolvia a matéria das coisas acordadas; dancei um saltarello ao toque de finados. Julguei que me tinha agasalhado e rido, que tinha vigiado e chorado, tudo a seu devido tempo.

Mas estou quase sempre enganada, quase sempre certíssima no compasso interno.

© Fata Morgana