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3 de março de 2010


Desconheço o autor da imagem

Porque abro os olhos e o que vejo é a roda que nunca pára, fecho-os para o deserto de gelo que tenho em mim; agasalho-me. Porque abro os ouvidos e o que ouço é o ruído branco que parece não ter fim, fecho-os para a canção que me canta a alma desde criança; embalo-me. Porque abro a voz e ela não soa no vazio desoxigenado, fecho-a para entoar sozinha a tal canção, minha, de sempre - "Dorme, menina triste/ Não te lembres de acordar/ Que toda a vida consiste/ No eterno desenganar". Afundo-me.

O poço é dentro e senti-lo é muito mais forte do que vê-lo. Eu não tenho vertigens, gosto da profundidade, atrai-me o que se oculta onde não chega a luz. O meu olhar é rasgado, como de cega, e não preciso da luz.
São tão poucas as coisas que, sob a luminosidade clara dos dias enormes, me prendem o olhar. Eu fujo-lhes, como das palavras. Essas trazem espinhos e medos como nenhuma escuridão. Por isso também não ouço, também me calo, sim, passo por arredia, por vazia ou por antipática. Porém, só queria um silêncio partilhado à beira do abismo.

E gosto de muita gente, oh gosto de demasiadas pessoas, mas quase todas lançam pedras para tentar descobrir quão fundo é o poço, e dói tanto a curiosidade com que as vão atirando, cada vez maiores, como se não fosse a mim. Talvez não saibam que magoa...

Sou muito mais funda do que saliente.
Por vezes, durante o sono, sinto que vou muito longe, quase como se chegasse, e há alguém que me recebe. O meu Anjo, talvez... É pura delícia, mas volto sempre com escassos fragmentos de memória da experiência.

E não conheço muitos dos monstros que hão-de aparecer onde nunca ainda cheguei.

É por tudo isto que tenho andado calada.


© Fata Morgana


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