
Desconheço a autoria da imagem
Fui eu a que brotou
quase sozinha.
Semente pequenina e improvável
Num meio hostil de pedras e ruínas
Cheguei
chorei sofri
estendi raízes.
Árvore frondosa
aqui estou
A tua sombra fresca
o ninho teu
Luz refractada no orvalho doce
Com que me vais regando
as cicatrizes.
© Fata Morgana
4 de agosto de 2009
Poema publicado no Blog da Sara em Novembro de 2004, não o tinha guardado em nenhum dos meus Castelos.
1 de agosto de 2009
Quieta e calma, estou atenta à intempérie. Não compreendo muitas coisas e aquelas que compreendo são desagradáveis e os meus olhos e ouvidos fecham-se, como as minhas mãos e o meu coração. Fico abrigada em mim, somente.
Tenho força. E tenho frio. Sinto-os. E o silêncio, só meu, é o único lugar que verdadeiramente me protege.
© Fata Morgana
Tenho força. E tenho frio. Sinto-os. E o silêncio, só meu, é o único lugar que verdadeiramente me protege.
© Fata Morgana
6 de julho de 2009

Arachne, de Susan Seddon Boulet
Era um amor esmagado
nos braços que o faziam,
sufocado nos beijos que mordiam.
Fulminante e louco,
desenhava a fio de punhal
com sangue aos borbotões,
(tão pouco).
Era um amor carnívoro,
que descrevias
como quem conta a um cego
o mapa que ele imaginou.
E o meu olhar aberto tacteava
com medo dos contornos improváveis,
(que sentia).
© Fata Morgana
23 de junho de 2009

The Rose Bower, John William Waterhouse
A Lenda da Rapariga Arrependida
Dormia abraçada a mim mesma, o mais enrolada possível no lençol e no edredon, que formavam uma espécie de casulo onde eu tentava sentir calor. Mas não o conseguia. Acordava gelada, apesar do Verão lá fora; apesar da cama ataviada para o Inverno rigoroso que havia dentro de mim. E constatava, invariavelmente, que tinha dormido apenas uma ou duas horas, que ainda tinha a noite pela frente. As noites demoravam sempre muito tempo a passar!
Desistia de dormir. Saía da cama e ficava a olhar para aquela casa que não me parecia a de sempre. Andava pelos vários compartimentos exactamente como um fantasma, escutando sons, revendo gestos, encontrando buracos que eu mesma tinha cavado ali e tentando, ainda, enchê-los - apesar de ser muito tarde para isso. Mas sentia-me noutra dimensão. Talvez ali os gestos fossem intemporais e viajassem até aos seus lugares certos, preenchendo os vazios do passado. Crente na força do querer, e mais ainda na do bem-querer, ia repondo todo o carinho, todo o amor, espalhando pela casa escura e fria uma imensa paixão.
Muito cansada mas insone, acabava sentada na cozinha com um baralho de cartas e uma chávena de chá, na tentativa de ocupar a cabeça com paciências infinitas. Incapaz de lhes prestar atenção, não conseguia terminá-las e ficava a olhar para as cartas que me sobravam nas mãos, lendo-as, interpretando-as. Esta Dama de Ouros devo ser eu... e este Valete de Ouros deves ser tu. E todas estas cartas entre o dois, deixa lá ver se têm um ar simpático?... Não tinham. E eram demasiadas.
Vestia-me e saía ao romper da aurora. Escolhia quase sempre um vestido vermelho, pois estava de uma palidez profunda e essa cor trazia-me uma ténue imitação do fogo que eu antes tinha no peito e me subia ao rosto, num rubor vivo, aceso. Andava um pouco pelas ruas, ao acaso, e este levava-me sempre até um enorme jardim onde havia um roseiral. Era ali o meu refúgio. Ali quase me era permitido não pensar. No meio de todas aquelas rosas tão perfeitamente belas, sentia-me invadida por alguma paz, como se tivesse morrido num dos bancos de pedra e as pessoas que passavam me fossem cobrindo de pétalas, com a maior naturalidade. Romanticamente, acreditava que pensavam para consigo, num suspiro misto de pena e deleite, "lá está ela, a rapariga arrependida!"... enquanto lançavam as suas pétalas, como quem cumpre o ritual antigo de alguma lenda triste.
© Fata Morgana
Publicado no Claro Obscuro em 30 de Novembro de 2004 (com um pequeno apêndice no final, que aqui foi excluído).
Dormia abraçada a mim mesma, o mais enrolada possível no lençol e no edredon, que formavam uma espécie de casulo onde eu tentava sentir calor. Mas não o conseguia. Acordava gelada, apesar do Verão lá fora; apesar da cama ataviada para o Inverno rigoroso que havia dentro de mim. E constatava, invariavelmente, que tinha dormido apenas uma ou duas horas, que ainda tinha a noite pela frente. As noites demoravam sempre muito tempo a passar!
Desistia de dormir. Saía da cama e ficava a olhar para aquela casa que não me parecia a de sempre. Andava pelos vários compartimentos exactamente como um fantasma, escutando sons, revendo gestos, encontrando buracos que eu mesma tinha cavado ali e tentando, ainda, enchê-los - apesar de ser muito tarde para isso. Mas sentia-me noutra dimensão. Talvez ali os gestos fossem intemporais e viajassem até aos seus lugares certos, preenchendo os vazios do passado. Crente na força do querer, e mais ainda na do bem-querer, ia repondo todo o carinho, todo o amor, espalhando pela casa escura e fria uma imensa paixão.
Muito cansada mas insone, acabava sentada na cozinha com um baralho de cartas e uma chávena de chá, na tentativa de ocupar a cabeça com paciências infinitas. Incapaz de lhes prestar atenção, não conseguia terminá-las e ficava a olhar para as cartas que me sobravam nas mãos, lendo-as, interpretando-as. Esta Dama de Ouros devo ser eu... e este Valete de Ouros deves ser tu. E todas estas cartas entre o dois, deixa lá ver se têm um ar simpático?... Não tinham. E eram demasiadas.
Vestia-me e saía ao romper da aurora. Escolhia quase sempre um vestido vermelho, pois estava de uma palidez profunda e essa cor trazia-me uma ténue imitação do fogo que eu antes tinha no peito e me subia ao rosto, num rubor vivo, aceso. Andava um pouco pelas ruas, ao acaso, e este levava-me sempre até um enorme jardim onde havia um roseiral. Era ali o meu refúgio. Ali quase me era permitido não pensar. No meio de todas aquelas rosas tão perfeitamente belas, sentia-me invadida por alguma paz, como se tivesse morrido num dos bancos de pedra e as pessoas que passavam me fossem cobrindo de pétalas, com a maior naturalidade. Romanticamente, acreditava que pensavam para consigo, num suspiro misto de pena e deleite, "lá está ela, a rapariga arrependida!"... enquanto lançavam as suas pétalas, como quem cumpre o ritual antigo de alguma lenda triste.
© Fata Morgana
Publicado no Claro Obscuro em 30 de Novembro de 2004 (com um pequeno apêndice no final, que aqui foi excluído).
4 de maio de 2009
O branco é negro nos dias tristes, nas caminhadas solitárias em dias cinzentos, confirmava uma vez mais, aconchegando ao corpo os alvos agasalhos.
As nuvens escuras, acasteladas, tornavam mais dramática a figura, emoldurando-a, e o longo vestido quente, o casaco muito comprido, pareciam materializar os gritos de pássaros distantes, ecoar ameaças de outras paragens... ou a promessa de gelo.
As mãos, cada vez mais frias, iam-se tornando azuis, semelhantes às pedras. E o reflexo nos vidros das janelas parecia tornar-se mais esguio. Tinha um andar estranho, quase irreal, como se deslizasse, e o nevoeiro cerrado abafava o ruído dos passos. O dia parecia ter criado a silhueta tão clara e isolada, como uma miragem. Não custaria a crer que desaparecesse de repente. Mas estava ali.
Não havia ninguém por perto, parecia que a cidade estava morta. Porém, sentia-se o olhar das coisas poisado na alvura quase despudorada da forma que evoluía bem depressa, embora parecesse fazê-lo em câmara lenta e como se não cansasse. Como se não deixasse anoitecer.
As narinas frementes inalavam o ar húmido, repleto de odores mórbidos e pouco conhecidos. Diurnos. As gaivotas, podia cheirá-las, tal e qual como as escutava, embora estivessem ocultas por um espesso véu de milhares de gotas de água. O sorriso fantasmagórico, que mal descerrava os lábios azuis, parecia dizer - sim, também consigo cheirar o medo.
Pressentida, sabia das pessoas escondidas nos lugares mais recônditos das suas casas, e que por detrás das cortinas das janelas, não havia ninguém a espreitar. Não queriam ver, tementes dos sortilégios. Muito menos ousariam fitar o abismo profundo no olhar contemplativo. Palavras, estavam fora de questão. Um temor ancestral, generalizado, deixava o mundo inteiro para a mulher de branco.
Finalmente parava. Era ali. Sempre fora ali. Já não existia a floresta, os caminhos isolados rasgando o frondoso arvoredo que se descerrava um pouco, junto ao cruzeiro há muito desaparecido. Mas o lugar era o mesmo.
Sabia que alguma coisa havia de acontecer. Sempre acontecera.
A mão azul havia de aflorar muito ao de leve o ombro de alguém que, julgando estar perdido, saberia o que era perder-se realmente.
© Fata Morgana
As nuvens escuras, acasteladas, tornavam mais dramática a figura, emoldurando-a, e o longo vestido quente, o casaco muito comprido, pareciam materializar os gritos de pássaros distantes, ecoar ameaças de outras paragens... ou a promessa de gelo.
As mãos, cada vez mais frias, iam-se tornando azuis, semelhantes às pedras. E o reflexo nos vidros das janelas parecia tornar-se mais esguio. Tinha um andar estranho, quase irreal, como se deslizasse, e o nevoeiro cerrado abafava o ruído dos passos. O dia parecia ter criado a silhueta tão clara e isolada, como uma miragem. Não custaria a crer que desaparecesse de repente. Mas estava ali.
Não havia ninguém por perto, parecia que a cidade estava morta. Porém, sentia-se o olhar das coisas poisado na alvura quase despudorada da forma que evoluía bem depressa, embora parecesse fazê-lo em câmara lenta e como se não cansasse. Como se não deixasse anoitecer.
As narinas frementes inalavam o ar húmido, repleto de odores mórbidos e pouco conhecidos. Diurnos. As gaivotas, podia cheirá-las, tal e qual como as escutava, embora estivessem ocultas por um espesso véu de milhares de gotas de água. O sorriso fantasmagórico, que mal descerrava os lábios azuis, parecia dizer - sim, também consigo cheirar o medo.
Pressentida, sabia das pessoas escondidas nos lugares mais recônditos das suas casas, e que por detrás das cortinas das janelas, não havia ninguém a espreitar. Não queriam ver, tementes dos sortilégios. Muito menos ousariam fitar o abismo profundo no olhar contemplativo. Palavras, estavam fora de questão. Um temor ancestral, generalizado, deixava o mundo inteiro para a mulher de branco.
Finalmente parava. Era ali. Sempre fora ali. Já não existia a floresta, os caminhos isolados rasgando o frondoso arvoredo que se descerrava um pouco, junto ao cruzeiro há muito desaparecido. Mas o lugar era o mesmo.
Sabia que alguma coisa havia de acontecer. Sempre acontecera.
A mão azul havia de aflorar muito ao de leve o ombro de alguém que, julgando estar perdido, saberia o que era perder-se realmente.
© Fata Morgana
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