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25 de maio de 2008


A casa antiga… o meu lugar favorito. Onde eu conseguia sentir-me, inteiramente. Sabia porque tinha dito ''espero'' e não esperara, e também porque atravessava tantos perigos como se fosse uma criança levada pela mão e estivesse segura de que nenhum mal poderia acontecer-me, nunca.
Costumava ficar absorta, ocupada, a ouvir as nossas vozes misturadas, ecos vindos das paredes tão velhas, pensamentos meus, tudo em uníssono... Ou percorria as antecâmaras e os quartos, as salas, corredores e escadarias, exactamente como faz um fantasma no lugar amado, detendo-me nos cantos mais meus, lugares de mim. Era sempre uma coisa de ganhar e de perder.
Acho que pulsávamos juntas, a casa e eu. Nunca ali fui intrusa. Os reposteiros gastos mal ocultavam as janelas de vidros partidos, por onde o vento entrava, e voavam, como longos braços tacteando em busca de um corpo querido, envolviam-me em carícias; e o sussurro doce do soalho a ranger sob os meus passos era uma voz de amor, sempre.
Havia apenas um espinho, e era um espinho que nascia de mim, mas eu não sabia afastá-lo, não era capaz. Pensava demais naqueles que a casa amara muito antes de eu chegar, mais do que a mim... ou talvez não. Aquele lugar era tão eu e dava-se-me tanto. Tinha o desejo imenso e a impressão de ser ali muito bem vinda. Mas a dor permanecia, eu não podia minimizá-la, pois a sua origem estava nas coisas do passado, eram as coisas do passado que me assombravam, e gosto tanto de tudo o que já foi, que não conseguia, por isso, ser, e quase preferia ter sido. Fazer parte das memórias queridas! Por vezes pensava que o verdadeiro fantasma era eu e fugia, voltava aonde não sentia o desejo.

Esse era sempre um regresso difícil, doloroso, mesmo. De cada vez deixava para trás um pouco de mim, vinha sempre menos eu. Cada vez detestava mais a casa nova, a casa onde eu não queria morar, com todas as chaves que eram precisas para entrar, e quase me ouvia dizer ''não, não, não'' enquanto dava as várias voltas às fechaduras. Despia-me e metia-me na cama, sem tirar o leve odor a humidade da pele. Adormecia cansada e suja, e tinha sempre sonhos importantes, de que era incapaz de me lembrar.


© Fata Morgana

12 comentários:

Henrique Dória disse...

Saudades de casas antigas significam o que dizia Eça de Queirós: flhámos, menino. Beijos

Morgana La Folle disse...

:) que ideia tão simplista! Achas que não há saudades boas? Eu, pelo contrário, penso que mau é não ter saudades.
Se fosse como dizes, então eu teria falhado desde pequenita, porque sempre tive essas saudades fortes, a começar pela minha casa de Alvalade, que deixei com 4 anos!

Não concordo nada contigo. Saudades de casas antigas, são as saudades das coisas antigas que lá vivemos, são saudades de nós próprios. Adorava poder voltar às minhas duas casas de família - as dos meus avós, tão cheias da miúda que fui - mas ambas foram vendidas, infelizmente.
Falhanço, credo! O falhanço é um incentivo a fazer melhor, nunca (pelo menos para mim) uma razão para ficar abespinhada a olhar para trás!
Não entendes nada do que é ser sentimental!

Acho que me lês muito mal, ultimamente.

biazinha disse...

Casa antiga lembra o útero da minha mãe, claro que não lembro de minha passagem por lá, mas até hoje guardo comigo a sensação e segurança e conforto. Já passei por um processo de mudança de casa: quando fui morar um tempo com meu pai... Não fui feliz... Retornei ao antigo lar e me reconciliei com as vozes, odores e cores... Sou filha da terra e não do vento.
Beijos, Fata!

Bruxinhachellot disse...

Raízes de tempos passados entranham-se no assoalho e a alma de uma antiga casa fica retida na lembrança de suas paredes.

Beijos de fadas.

Klatuu o embuçado disse...

Chama-se templo; o quarto fechado onde morreu louca a tia avó e que é tabu, os corredores, os tapetes, os quadros e as fotografias, antigos como o pó parado.

Chama-se templo perdido e é sagrado.

Dark kiss.

P. S. Encontrei um livro sobre runas que explica tudo da vida sexual de advogados baixinhos, feios e velhos. Se quiseres passo-te a maravilha.

Morgana La Folle disse...

Olá Biazinha, filha da terra :)

é engraçado como sabemos essas coisas, pois é?

Acho que todos guardamos reminiscências do tempo passado in uteru. Sem fome, sem sede.

Beijos

Morgana La Folle disse...

Bruxinhachellot,

pois, as casas guardam algo muito semelhante às nossas recordações, eu também acho.
Obrigada pela vinda! :)

Beijos de fadas,sim.

Morgana La Folle disse...

Klatuu,

oh... é exactamente isso e o que escreves é tão bonito!

Dark kiss

PS. Estás a brincar pois estás, mafarricão? :))
Bolas, fizeste-me rir, rir, rir...

Goldmundo disse...

O livro chama-se "RUN'Away, he's a Vampyre"

;)

mariazinha disse...

Ler-te avivou-me as saudades das casas dos meus avós... obrigada. :)
Eu também penso que há saudades boas. Há noites em que acordo pensando estar nas casas antigas da minha infância. Durante os segundos que levo a perceber onde estou, percorro-as e chego a sentir-lhes os cheiros. É bom...


beijo*

Morgana La Folle disse...

LOOOOOOOOOOL

Goldmundo, que sorte teres tido "o ataque" aqui :)))
Assim fiquei com um dos teus trocadilhos!

:))

Morgana La Folle disse...

Mariazinha,

claro que há saudades boas; claro que as casas do passado nos marcam (depende das pessoas, mas o mais normal é que sim) e sentimos saudades.
Ainda bem que tens sonhos que envolvem os sentidos! Eu também tenho, são os melhores, parecem mesmo reais. Gosto de sonhos, até de pesadelos! :)

Obrigada e um beijo.