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8 de maio de 2008


O voo é dos pássaros. É um êxtase que lhes pertence e eu cobiço tanto.
Tantas vezes fico sentada nos degraus a sentir que dentro de mim há pássaros que voam em lugares esquisitos que só em sonhos conheço. Gostava de saber soltá-los mas não sou capaz de provocar o estado de consciência alterada quando quero. Queria ver os meus pássaros cá fora. Imagino-os semelhantes aos bandos de estorninhos, enchendo o entardecer de desenhos hipnóticos. Mas se pudesse soltá-los, talvez não fosse capaz de os recolher de novo, ou eles próprios não quisessem voltar ao meu abismo interno.

Os monstros dos sonhos também existem para cá dos sonhos. São sempre os mesmos, trazem-me pela mão desde pequena. Nunca compreendi porque são, todos eles, mudos, nem como se misturam com os pássaros de dentro, já que me são exteriores.

Suspeito de que lhes pertenço, porque também eles me criaram, foram-se escondendo de todos, que os não viam… mas via-os eu, sempre. Nunca fui capaz de perguntar ''mãe, vês ali os monstros?'', nem de dizer ''pai, não saias daqui porque eles são tão frios''. Acabei por aceitá-los com uma certa indiferença. Habituei-me a essa solidão. Talvez por ter em mim os bandos de estorninhos, comecei a mergulhar para dentro. Ausentei-me.
E claro que também aprendi a fazer as coisas do costume, ou outras novas, sob os seus olhares silentes.

Mas ainda hoje há alturas em que não consigo deixar de lhes ser cativa. Quando tenho as mãos magoadas e a sede não morre, e o vermelho em mim transborda a loucura que escondo; o estar sempre perdida e saber que todos estaremos sempre sós com a chuva desabrida a escorrer no rosto, - ''já estou a chorar preto?'' ''já'' - e não é só chuva misturada com eyeliner, há também o sal que só eu sei. Arde. Não posso fugir desse ardor nem do vermelho que transborda. Nem dos monstros.

É quando estou assim, presa, que lhes falo. Em vão. Não têm palavras, não fazem gestos. Ficam a olhar-me com uma espécie de doçura perversa. Suponho que sabem que conheço muitas das respostas àquilo que lhes pergunto, como sei que as línguas deles são a minha língua.

Não sei porque deixaram intactos os meus olhos.

© Fata Morgana

21 comentários:

Anónimo disse...

" Ouvi os pássaros de noite a cantar" (retirado do poema anterior)
Interessante este tema. Um poema e um texto profundos. Parabéns.
Um beijo grande.
João Norte

Morgana La Folle disse...

João Norte,
eu sou noctívaga, não admira que ouça mais os pássaros da noite do que os pardais :))

Aqui falo mais com os/dos meus monstros. Mas o outro Castelo está lá, nunca o abandonarei!

Um beijo para ti.

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
Visito-te no meu dia e vejo o teu "cantar", pois é de poesia que se trata... As tuas imagens são maravilhosas! Talvez por isso, os estorninhos te deixaram os olhos para que não deixes de ver... isto é, sentir a solidão e, sem desistir, a esperança...
Um beijo
Daniel

Morgana La Folle disse...

Os estorninhos voam dentro de mim. Os monstros, vejo-os cá fora. Acho que os confundiste... Eu falo ora de uns, ora de outros, sem explicar muito a quais me refiro. :)

Um beijo*

LuCe disse...

Acho que um dia aprendemos a saber viver em dois mundos diferentes. Não que eu tenha aprendido :)

Beijo.

Morgana La Folle disse...

Eu também não digo que aprendi. Mas ando a tentar, desde os cinco anos :)

Um beijo, Luce.

Klatuu o embuçado disse...

Grande fascista! - falas de monstros, e foram eles que fizeram o meu trisavô em torresmos!

Devias ter vergonha - e os fachos vestem de preto; a mim não me enganas!

LOL!!!
Dark kiss.

Morgana La Folle disse...

Ora, escusavas era de me desmascarar assim, afinal eu também tava aqui embuçada e tudo :)))

Dark kiss.

fairy_morgaine disse...

minha fata. há tanto que te queria dizer, no entanto, os meus monstros silenciam-me. encontro-me nas tuas palavras.
obrigada.

Klatuu o embuçado disse...

Tás é cheia de corvos e mais passarada ainda por classificar! :)=

Dark kiss.
P. S. Temos mais runas, daquelas que assustam homens baixinhos... :)

Morgana La Folle disse...

Eu sei, sister ;)
Espero sempre, voltas sempre, como também eu lá volto sempre. Às vezes fico muda, tantas vezes. As sombras, ambas as conhecemos.
Obrigada eu.

Morgana La Folle disse...

Klatuu,

LOOOOOOOOL "passarada ainda por classificar!" :))))

Runas. Bolas, nunca me passou pela cabeça que fosse acontecer esta merda com as minhas runas!!! (Melhor dizendo, as vossas runas, quem vem é que as lança para eu ler, interpretar).

Vou ver de que novas runas falas :)

Dark kiss.

Twlwyth disse...

Bem... depois desta tua resposta ao comentário, esvai-se qualquer tentativa de seriedade para te Falar. lol De qualquer modo, gostei da magia deste teu espaço.

Beijo

Morgana La Folle disse...

Twlwyth,

este espaço é o meu castelo, sempre aberto :)
Ainda bem que gostaste.
Um beijo.

Klatuu o embuçado disse...

Homens baixinhos, com o frio a Norte, têm alucinações, não sabias?

Ainda há 15 dias passou um por mim, que me dava pelo umbigo, e me confundiu com o Estripador! :)

Dark kiss.

biazinha disse...

Acredito que toda pessoa tenha o desejo de voar de fato. Voamos em nossas divagações, anseios e fantasias pra bons e maus lugares. Não conseguimos concretizar e visualizar esse vôo, mas ele existe e está lá.
Sim, lidamos com monstros por nossa vida inteira: o da raiva, o do medo e de outros sentimentos menos nobres, e eles são teimosos, pois, não se vão a despeito de orações e água benta.
A solidão é um fato, por vezes nos misturamos na multidão pra nos proteger de sua nuance fria e escura.
Cuide bem desses olhinhos!
Lindo texto!
Voltarei, posso?
Bjuxxx.

^^

Morgana La Folle disse...

Klatuu,

espero que não o tenhas desiludido e tenhas estripado logo alguém!

:)

Dark kiss

Morgana La Folle disse...

Biazinha,

claro que podes voltar, sempre que queiras. Obrigada.
Sabes, às vezes eu acho que os monstros têm medo de mim. É uma ideia um pouco bizarra :)
Beijos

Ariel d'Angouleme disse...

Sempre vi monstros...
Todos eles viam ao espelho o mesmo que eu.
Partes de mim que não queria aceitar...
Outras vezes, a mais pura noção de incapacidade... como esse vôo que nunca arriscámos pelo medo de cair.
E cedia. Cedia sempre.
Os monstros possuem um poder de persuasão incrível.

Adorei este pedacinho:
"Os monstros dos sonhos também existem para cá dos sonhos. São sempre os mesmos, trazem-me pela mão desde pequena."

Beijo*

Morgana La Folle disse...

Ariel D'Angouleme,

gostei da tua leitura!
A frase que destacaste é muito sentida... ainda bem que gostaste, porque é mesmo assim, há montos que me trazem pela mão desde pequena. Gosto de ter sido capaz de o dizer de uma forma bonita :)

Sim, são persuasivos, os montros.

Beijo.

Morgana La Folle disse...

:)) bolas, desatinei com a palavra MONSTROS!!

É MONSTROS, MONSTROS!