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6 de janeiro de 2009


René Magritte (1927)

Voltaram os dias normais. Hoje é Dia de Reis, mas já ninguém presta atenção a Gaspar, Baltazar e Melchior, que perseguíam estrelas. Agora toda a gente anda preocupada com os mandões do nosso tempo, que apenas procuram o poder, não têm coroa nem ceptro, não querem saber do reino, e muito menos ser magos. Querem encher-se de si mesmos, mandar, e pronto. Por isso o dia de hoje parece tão normal, ou anormal, como qualquer outro destes tempos desinteressantes.

Eu respiro aliviada. Não é porque não goste do Menino Jesus, ou de cumprir rituais de passagem, quando morre o ano velho e logo nasce o novo. Não gosto é do desvio que sofreram essas festas. Cristãs ou pagãs, Natal ou Yule, faziam sentido. Agora não passam de um alarido extremamente cansativo, desligado dos verdadeiros rituais de origem, geralmente ignorados. E arrepia-me que já não se distinga oferendas de bugigangas.
Todo o frenesim dos papeis rasgados, os montes de desperdícios nos passeios, as lantejoulas bêbedas e os tacões agulha a esboçar passos e danças ao acaso, em nome de um consumismo desarrazoado e da diversão obrigatória, à força. Fica-se consumido, nada divertido e... esvaziado. Toda a corrente de energias gastas nestas actividades destituídas de quanto lhes era origem, causa uma espécie de tufão negativamente energético. Mas já passou.

E hoje voltei a mim - estava hibernada, como sempre nesta altura do ano, distante daquela parte de mim que anda por aí a cumprir os dias; e ao regressar de longe, onde estive com a eu que mais sou e menos manifesto, encontrei um pouco desamparada a eu que ficou à espera, e disse-lhe - "Oh não pudeste ver o Sol parado... Nem sentir em ti o sorriso Dele". Ela olhou-me em silêncio. É sempre muito estranho quando ficamos assim, olhos nos olhos. Somos exactamente iguais mas ela parece um reflexo pálido e eu palpito. Ela é a sofredora, a sacrificada. Tornou-se um pouco automática, mas está sempre onde deve e é muito mais velha do que eu. Eu sou a verdadeira, a mais intensa. Ausente, muitas vezes. Dramática errática e louca.
Temos tanta pena uma da outra... Ambas esboçámos o gesto protector e, num abraço, voltámos a ser só uma.
Hoje voltei a mim. No dia de Reis, como sempre.

© Fata Morgana

26 comentários:

Alisson da Hora disse...

Também arranjei um jeito de hibernar, conversar com as palavras, ver as coisas passando ao largo, adormecendo para melhor despertar depois.
Agora tudo começa de novo...

vamos lá, sob a benção das estrelas...

um beijo grande

bat_trash disse...

Talvez seja por isso que eu não goste dessas festividades: pelo desvio do real objetivo. Natal se resume a troca de presentes e comilança, páscoa a um feriado com boas comidas e muito chocolate e ninguém mais presta atenção nos Reis Magos.
Ah, esse ano não falo da passagem do ano, pois foi o dia mais alegre e intenso que tive. Não por ter ido à praia com um grupo de pessoas, mas por estar entre aqueles que são importantes para mim. Não estávamos juntos por estar ou pela festividade, e sim porque queríamos. Seria bom mesmo que estivéssemos dentro de casa, todos juntos. Porque a vida por vezes tem um lado cruel e a roda viva não permite que estejamos sempre com aqueles mais prezamos.
Ah, já falei até demais...
Bom retorno!

Siegrfried disse...

Sinceramente.
Festas são coisas poucas.
O que importa é o que se sente, e o significado.
Pena que poucos o entendam.

andorinha disse...

Está soberbo, Fata!
E há sempre um abraço que sela um reencontro. Ainda bem que já o deste.

"Fica-se consumido, nada divertido e... esvaziado. Toda a corrente de energias gastas nestas actividades destituídas de quanto lhes era origem, causa uma espécie de tufão negativamente energético. Mas já passou."

Sinto o mesmo...
Mas é isso: já passou.

Beijo grande*

Escabroso disse...

Benvinda de volta a ti.

Beijinhos.

Ruela disse...

Ainda bem que já passou.





Gostei imenso de te ler.


bjs.

Morgana La Folle disse...

Alisson,

Eu sempre fui como aqueles bichos que hibernam. Quando isto me dava nos tempos do secundário era um sarilho...

Um beijo*

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Bat,

Nunca acho que falas demais porque dizes coisas bonitas e acertadas.
É isso mesmo: presentes e comilança. Dá-me nervos, ou antes, NEURA! :)))

"Não estávamos juntos por estar ou pela festividade, e sim porque queríamos."

Isto vale tanto e não se pode comprar ou vender, felizmente.

Um beijo grande*

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Siegfried,

Festas são coisas poucas e o que importa é o que se sente, sim. Coisas que cheguem ao coração ou que venham do coração... poucas, portanto, e importantes.

Um abraço.

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Andorinha :)

Que bom ver-te a falar, caramba!
Quanto ao abraço, acabava sempre por ser dado porque eu dou-me bem comigo mesma, mas sou difícil :(

Beijo grande para ti*

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Escabroso,

obrigada e obrigada (por estares presente, tu sabes).

Beijos*

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Ruela,

passou mas de vez em quando volta, faz parte de mim.
Eu gosto imenso de te ver aqui.

Beijos*

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
Aplaudo a reunião dos teus eus... imagina o bom que é podermos reunir, discutir, ter ideias constrastantes com o nosso eu... é magnífico e sinal de uma inteligência superior.
(ou uma capacidade extra-qualquer coisa) :)
Os teus castelos, como já foi reconhecido, são locais obrigatórios de prazer, em diversos planos... breve far-se-ão teses de mestrado (quiça, doutoramento) com base no estudo destas montras de excelência comunicacional, como são as tuas.
Outra foto tua e todas mostrando que a beleza e a emoção também se somatiza num rosto.
Um beijo
Daniel

mariazinha disse...

Li, e ao ler, senti como minhas as tuas palavras.É assim.

Beijo grande.

Vertigo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vertigo disse...

Muita verdade,o que dizes.

E já te disse que és realmente bonita? por fora e por dentro.

Um beijo grande

HornedWolf disse...

Uma vez um Mestre disse-me:

"Um pássaro cai morto no chão antes de ter pena de si mesmo"

Um abraço forte, por onde andas?

bia monte disse...

Eu fui criada na tradição católica, pois sou de família italiana.
Essa festa se tornou uma grande celebração, por exemplo, na igreja ortodoxa, tanto católica quanto russa. A Festa de Reis é celebrada com mais solenidade inclusive que o Natal.
Tanto é verdade, que em determinados países você ganha presentes no dia 6 de janeiro. Na Espanha, a data é chamada de Festa de Reis. Na Itália eles chamam a festa da "Befana",uma velha bruxinha boa que dá presente para as crianças. É uma imagem bonita, porque tira aquela idéia da velha bruxa má que pega as crianças. No Natal, você sente, principalmente na Itália, a valorização do idoso. Essa tradição é seguida até hoje na Itália: ninguém recebe presente no dia 25 de dezembro e, sim, no dia 6 de janeiro. Na Europa inteira é feriado no Dia de Reis.
O período do Natal vai até o batismo de Jesus, é um tempo maior. Mas hoje, com a pressa do mundo, para nós, brasileiros, no dia 1º de janeiro já é Carnaval.(risos)
Apesar de a maioria dos brasileiros não estar tão ligada quanto os europeus à Festa de Reis, inúmeras comunidades, principalmente no interior do Brasil, promovem os chamados Reisados ou Folias de Reis, festas folclóricas que receberam a influência das origens européias da celebração, mas que adotaram formas cores e significados locais bastantes próprios de nosso povo na expressão que virou parte de nossa cultura.
Os Reisados brasileiros envolvem música, dança celebração religiosa, orações, com elementos específicos mais marcantes dependendo da região do país, e acrescenta a tradição de que aqueles que recebem a visita do Reisado em suas casas (na realidade, o simbolismo representa a visita dos Reis Magos a Jesus) devem oferecer graciosamente comida a seus integrantes, que realizam toda sua performance de tradição folclórico-religiosa local, enaltecem o hospedeiro, agradecem pela comida e seguem para o próximo destino.
Entendo teu protesto, pois me sinto assim. Apesar de não professar do catolicismo atualmente, não me agrada a idéia do desvio da essência dos rituais de origem.
Beijos.

PS: Como Bia viajou(volta hoje) e não terá tempo para blogues no fim-de-semana e eu estou em casa, ela me pediu para visitar alguns e deu-me uma lista.

Morgana La Folle disse...

Daniel,

É impossível responder-te. Nenhum dos meus eus é suficientemente vaidoso para o fazer ;)))
As montras comunicacionais é o que me deixas para opinar. Sim, também acho que os blogs serão muito mencionados e objecto dos mais sérios estudos, pois têm sido expressão de coisas muito importantes e diversas. Aqui já se descobriram várias espécies de talentos, é feita contestação política, económica e social, e o que mais me encanta é a vertente artística, que os blogs portugueses manifestam tanto. Creio que não é tão comum encontrares blogs ingleses, franceses ou suiços, dedicados à poesia e à literatura. Há alguns, mas nada que se compare com a quantidade de blogs lusófonos que merecem o formato de livro!
Beijo grande.

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Mariazinha,

se é assim fico contente, pois!
Beijo grande para ti*

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Vertigo,

É verdade sim, é um desconsolo este Natal dos dias de hoje :(

LOL já disseste isso - não foi aqui. Mas eu vou remeter o elogio à parte de fora para quem me fez :)) e guardo para mim só o da parte de dentro.
Um beijo grande, também*

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HornedWolf!

Bons olhos te vejam aqui pelas terras de Gore!
Eu não devo ter muito de pássaro, porque creio ter uma conciência do chamado "si mesmo" acima do comum (soa gabarola, mas não há outra forma de o dizer e é verdade) e tenho pena de mim... às vezes. Mas ainda não caí morta.
Um abraço forte. Tenho de aparecer lá pelo abismo ;)

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Bia Monte,

tenho imenso gosto em ver-te por aqui - que surpresa boa!
Eu também fui criada na tradição católica. Dantes o dia 6 de Janeiro era feriado e enquanto os meus avós foram vivos, mesmo já sem feriado, em casa deles a noite de Reis vivia-se, tal como a noite de Natal. Faz muito mais sentido trocar lembranças nos Reis, pois é o reproduzir do que estes fizeram!
Mas o que eu critico é o excesso, e o deslocar da atenção para as prendas exorbitantes, em vez de se concentrar no que é importante e está na origem da tradição - e isso tanto acontece no Natal como nos Reis (depende só de qual é considerada a maior festa). E nenhuma delas é uma festa de prendas ou de gastronomia :(

Um beijo grande! Aparece, mesmo sem a lista da Bia :))
Um beijo para ela*

aquilária disse...

morgana, pelos vistos é hoje que inauguro a tua caixa de comentários... :)
também, como tu, rejeito, há já alguns anos, aquilo em que esta quadra se foi tornando. e também hiberno, claro. fecho-me, como eu digo, "com os comigos de mim" e o que é problemático é que cada vez me é mais difícil regressar.
entre os meus, festejamos quer o natal, quer o dia de reis. e aproveito sempre para oferecer aos amigos, nesta época, pequenas lembranças: imagens, poemas... até pedras que achei especialmente bonitas já ofereci.
por falar nisso,e embora o dia de reis já tenha passado, informo que deixo aqui um raminho de avelãzeira, para o caso de precisares de substituir aquele que, até agora, tens usado - e muito bem. :)
beijo

Morgana La Folle disse...

Aquilária,

é incrível teres aparecido ontem, teres resolvido falar ontem, porque ao final da tarde pensei imenso em ti, de um modo especial. Não há coincidências: é uma convicção que tenho, sem fundamentalismo - o que quer dizer que às vezes até pode acontecer uma ou outra, mas a tua vinda não foi coincidência.

É difícil regressar, pois. E quando por fim o fazemos, damos connosco um bocadinho mais rarefeitas... acho que é uma boa expressão. Mais dentro; mais alma; presenças um bocadinho mais ausentes.
Por vezes penso que gostava de poder usar uma espécie de fio-de-Ariadne que me trouxesse mais depressa, mais a direito, e não é por mim inteira, pois quase completamente gosto de estar hibernada. Mas é que... também gosto de voltar.
Natal e Reis, são festas bonitas que vivo sempre distante, e há as lembranças que se materializam em coisas simples, como dantes, e também gosto imenso de pedras. E de folhas e de bagos de arbustos, ouriços de castanheiro e frutas venenosas - vou ao jardim botânico e volto com os bolsos cheios de preciosidades que quase ninguém entende e eu uso para decorar os espelhos, que depois me devolvem uma imagem de mim mesma numa moldura com que me identifico.
Por isso calculas como gostei do teu raminho de avelãzeira, e já sabes onde o vou pôr.
Eu tinha aqui à tua espera uma haste de orvalho do mar, a que costumo chamar coroa das montanhas, mas não quando é para oferecer à Senhora da Ínsua ;)

Obrigada e um grande beijo.

Lord of Erewhon disse...

Um tempo sem Reis e sem demanda nem estrela-guia...

Dark kiss.

Morgana La Folle disse...

Lord of Erewhon,

é verdade, se olhares para o todo. Por isso é que hiberno: "o todo" é estúpido e ruidoso; mas eu não olho.

No entanto, dentro de ti só pode haver Reis, demandas e estrelas-guia. Hiberna também ;)

Dark kisses

Gotik Raal disse...

Morgana,
Voltaram então os dias normais. Das palavras, das leituras, das coisas extraordinariamente ditas, como...
"Temos tanta pena uma da outra..."

E no entanto esses dias de que falas vivem sempre, em nós, nessa reunião com o que sempre soubemos que é certo.

Os outros dias não passam de ruído, de feira suja.

Um beijo e um Ano Bom,
Gotik Raal

Morgana La Folle disse...

Gotik,

finalmente reapareceste! :)

Ruído e feira suja. É exactamente isso, e torna difícil estar serena e sossegada para o que vale e, sim, está sempre vivo.

Feliz 2009!
Dark kiss.

0.04 disse...

:)
como é bom reentrarmos em nós
*

Luís Filipe C.T.Coutinho disse...

Voltar ao ínicio ao começo de quem somos....



beijos

Morgana La Folle disse...

0.04,

se é... (bom, perigoso, sagrado, fundamental... etc... etc... ;)

*

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Luis,

... ou (re)continuar... :))

Beijos para ti.

0.04 disse...

"perigoso, sagrado, fundamental"
coisas que vem juntas na rede, na teia, das ilusões, de que é feito este mundo onde estamos submersos...

beijo

sibiluna crafts disse...

a vida obriga-nos muitas vezes (tantas vezes) a ter um eu de piloto automático, que cumpra os rituais e obrigações do dia-a-dia, que fale por nós o que temos de falar, que nos movimente os pés e as mãos como se uma marioneta fôssemos. eu não olho de frente esse piloto automático, mas sinto-o em mim com frequência, adormecendo-me e tomando o controlo da máquina. nós precisamos desse descanso por vezes. ainda bem que existem essas alternativas: a outra tu, o meu piloto ou o duplo secreto do grande Magritte.

parabéns pelo blog, gostei muito de o ler.

(reparei que os algarismos estão trocados na legenda: o ano da pintura é 1927, em 1972 já Magritte havia deixado este mundo)

Morgana La Folle disse...

Sibiluna Crafts,

Obrigada por me chamares a atenção a respeito dos algarismos trocados nas datas!

Sim, creio que todos temos alternativas como a minha, a tua, ou a do Magritte. Espero que sim. Espero... Porque a alternativa é acreditar que quase toda a gente anda feliz no meio de coisas feias.

Obrigada e volta sempre.