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27 de novembro de 2009


The Blind Leading the Blind - Brueghel, o Velho, 1568

Vou falar de uma rapariga inacreditavelmente bela - isto, segundo a descrição perplexa de um rapazito que, ao contemplar pela primeira vez tão especial criatura, mal podia crer nos seus próprios olhos. Esta característica está muito exagerada e o destaque deve ir, inteirinho, para o tal rapazito. Na realidade, ela - a quem por conveniência vamos chamar Héloise -, apenas possui uma aparência calada e funda, muito longínqua e fora do comum, que muitas vezes causa saudade e sentimentos de perda naqueles que a vêem. Mas esses, são muito poucos.
E, no que respeita a Héloise, a beleza importa pouco. O que ela tem de especial é outra coisa, é ter no peito um coração. Um coração de verdade, que bate muito forte, que se sobressalta, que se aperta, que às vezes enlouquece e vibra. Um coração que reage a penas e alegrias, que conhece a misericórdia, o perdão, o arrependimento; que faz Héloise rir e chorar, fugir e voltar, e que às vezes também se fecha e endurece, quando ela se sente profundamente zangada ou triste. Não é uma víscera, como aquela que possuem os actuais mutantes humanos. É um coração antigo, obsoleto, uma coisa da qual hoje quase todos riem e fugiriam a sete pés se não tivessem a certeza de que não existe qualquer perigo de contágio.
Com uma coisa assim tão rara, Héloise não se parece nada com a grande maioria das outras pessoas e estas pouco se identificam com ela. Talvez por isso, ela sempre gostou de se esconder e ficar sossegada, debruçada no seu poço escuro, a afagar as sombras dos pensamentos que traz quase sempre no olhar. Claro que se sente um bocadinho só, mas não se importa muito. Custa-lhe menos suportar a solidão do que a confusão e os enredos das actuais pessoas, e de longe lhes prefere o rumorejar das árvores, as vozes dos pássaros, o lamento doce da chuva, o estrondo dos trovões. Adora animais e estes facilmente a seguem para todo o lado, coisa de que se orgulha bastante, embora não lhe importe mesmo nada o que as pessoas pensam dela.
Héloise costuma dizer que nasceu fora do seu tempo, que pensa, sente e age como uma mulher medieval. E de facto ela faria muito mais sentido entre os antigos Bretões. Ou então junto dos visigodos ou dos ostrogodos... Esta questão - onde a colocar? - põe-se em termos geográficos, não de épocas e costumes.
Porém, ela nasceu no tempo dos consumismos estapafúrdios, dos meios audio-visuais prolixamente soberanos, do hedonismo medonho. E do individualismo. Mas um individualismo sem lugar para eremitas como ela, sem lugar para a solidão boa.
Já nem sequer há povos, apenas grupelhos, entre os quais a paz só dura enquanto as conveniências de cada um não se chocam com as dos outros. Também já não se sofre, porque todos estão embotados. Uns pelas tecnologias de ponta. Outros porque são intelectuais, mas não no sentido fantástico em que o foi Abélard, e sim no de uma tendência doentia para a criação e amamentação de ludotecas pensantes. Por isso Héloise esconde-se mais do que nunca.
Sabe que estes são tempos de cegos que guiam outros cegos. E, se é quieta e silenciosa, está muito longe de ser estúpida, e detesta as abominações destes tempos que nunca serão os seus. Foi tudo isto o que o rapazito viu. E foi por isso que a achou inacreditavelmente bela!

© Fata Morgana

18 comentários:

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
Mesmo sendo cego e, porventura, conduzindo outros cegos, sei que foi a falta de amor que me cegou... ou a crença num amor, que só existe escondido em corações heloisianos, enquanto sou vento em cima de um cavalo romano. O olhar perdeu-se fora do Império, por alguém a quem não consegui chegar...
Um beijo
Daniel

Morgana La Folle disse...

Daniel,

não falas como um cego...

Um beijo.

Morgana La Folle disse...

Oh.... O nome devia ser escrito com trema - Héloïse - mas aconteceu qualquer coisa com o código e o trema dá erro, no corpo do texto. Descobri que aqui não! ;)

Espero que ninguém leia Êluáse!!

Frankie disse...

Sim; foi tudo isso que ele viu e é tudo isso que eu vejo também...tudo o que a faz inacreditavelmente bela e que me faz amá-la, mesmo quando em silêncio.

Um beijo imenso minha querida.
E saudades. Sempre.



PS: Desculpa o silêncio (é só silêncio mesmo; não é ausência). Estou enroladinha no fundo da concha, já deves ter reparado. Preciso.

Gotik Raal disse...

Olá Morgana,

Que bela história; e ainda melhor descrição dos tempos que já nem são os modernos, bastante ascorosos - embora "ascoroso" seja uma palavra demasiadamente nobre para aqui. Isto é, se li no texto o que acredito que lá está; mas mesmo que assim não seja foi para onde me atirou. Antes a solidão e silêncio, mas os verdadeiros: não a actual solidão profusamente comunitária, deprimente, só - apenas porque vazia; não o silêncio de egos a estrebuchar, tentando atravessar a parede de ruído branco, dos outros egos e das máquinas que, supostamente, são a nova religião.

É que estar só e desocupado (sem aparelhos e argumentos para bramir) assusta: não se vá correr o risco de olhar para dentro, e não se encontrar vivalma.

Um beijo e um obrigado pelos teus belos escritos.
Gotik Raal

fairy_morgaine disse...

sinto-me tão assim. sentimos tão assim, minha irmã. e quem nos sente costuma estar sempre tão longe.
mas tudo isto tu já sabes.
faço-te uma vénia.

lysa disse...

É inacreditavelmente bela,sim.Aqui a raparigazita também viu ;)

Um abraço,minha querida Héloise*

Morgana La Folle disse...

Frankie,

o "silêncio mesmo" é das coisas que melhor compreendo e respeito. Nada a desculpar ;)

E obrigada (pelo resto...)

Um beijinho.

___________________________

Olá Raal!

Pois, tu achas sempre que os meus textos te atiram para qualquer lado. Desculpa o qualquer - ofende a ti e a mim e não é nada a palavra certa, aqui, mas estou com gripe, cheia de dor de cabeça, com alguma febre, e por isso a falar de uma forma um bocado tosca. O que quero pôr em relevo é o ATIRAM. Agrada-me esse poder bárbaro!

Leste muito bem, parece-me.

Um beijo para ti e nada de agradecimentos, que eu estou retribuída pelo que lá tenho lido (sim, não comentei, mas li... e ainda comentocrithes).

____________________________

Morgaine,

sim. E também sei que esse longe é, muitas vezes, o possível perto para se estar com pessoas como nós. Rarefeitas, porém densas. Aparentemente impossível, pois (não) é?

Vénia retribuída*

____________________________

Lysa,

:)*

Não te posso responder sem dizer imensas coisas que a Héloïse não quer que eu diga (mas gostava).

Outro para ti*

Morgana La Folle disse...

Raal,

tens uma palavra esquisita na minha resposta ao teu comentário - crithes :)

Era a minha palavra de verificação, ou lá o que chamam a estas coisas. Não sei porque foi parar a ti!

*

Ruela disse...

Boas Festas!

bJS.

Morgana La Folle disse...

Ruela,

obrigada e Boas Festas para ti, também! :)

Beijinho*****

Klatuu o embuçado disse...

FELIZ NATAL :)=

Beijinhos.

Morgana La Folle disse...

Klatuu,

Feliz Natal, mais uma vez ;)

Beijinhos.

mariazinha disse...

Bela, sim.
Como as coisas que escreve.

;)

saudades...

beijo grande

Morgana La Folle disse...

Mariazinha,

como sabes que ela escreve? Sempre desconfiei que eras adivinha... :))

Outro beijinho grande para ti, e saudades, também as sinto!

Ariel d'Angouleme disse...

E é tudo isso que torna este texto inacreditavelmente belo...
Agarras-nos de tal forma com esse anzol chamado palavra, que damos por nós fora de água prestes a sufocar... e é quando, com um carinho especial, nos tornas a devolver ao nosso meio com uma "lição"...
Todos os teus textos ensinam algo...
É o mais brilhante de tudo...

Beijo*

Morgana La Folle disse...

Ariel,

eu sou muito má a dar lições na vida (apesar de ter sido uma boa professora, mas de coisas curriculares). Se encontras lições, são inconscientes e não há qualquer intenção de as passar. Geralmente estou a desabafar e a espernear, calada e quieta :))) Vou escrevendo porquê... e conto o que sinto (não sei falar do que penso, isso é subterrâneo, está para lá das palavras) e fico sempre a achar que não devia ter aqui nada disto, que me exponho muito. Mas não sei fazer de outra forma.

E fico sempre contente por gostares!

Beijo*

Ariel d'Angouleme disse...

Compreendo...
Também sou um pouco assim...
Estou sempre a escrever-me e a reescrever-me... com nomes diferentes...
Todos eles são EU...
O que sinto, o que sonho, o que penso... o que evito...
Enfim...

Mas voltando a ti...
As lições estão lá...
E bem explícitas...
Eu saio do blog sempre pensativo, porque há sempre uma pontinha que pega com a minha consciência relativamente a algo... ;)


É muito bom ler-te...
É sempre muito bom...

Um beijo grande*

P.S: E se tudo isto és TU, então TU és brilhante...