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18 de abril de 2008

''Quando em contacto, sofrem uma modificação profunda''.
Esta frase estranha veio-me como uma ideia ligada ao passado reminiscente assim que abri aquela caixa cor-de-rosa, já quase descolorida e muito esfolada. O tempo.
Recordava-me dela, mas não assim, perplexamente vazia, e o seu conteúdo de outrora era para mim um mistério. Não conseguia mesmo lembrar-me para que a usara, nem porque tinha querido uma caixa daquela cor, de que nunca gostei. Era uma das minhas caixas dos tesouros de miúda. A única que se encontrava vazia.
Noutra encontrei o que restava de umas pobres minhocas; numa terceira descobri uns desenhos horrorosos que me fizeram rir, pois eu só guardava coisas mesmo valiosas, portanto devia achá-los umas obras-primas. Enfim, casas de caracóis, conchas, pedras (mania que ficou!), folhas, restos de florzinhas minúsculas que me haviam extasiado pela perfeição grandiosa e silvestre, pinhas e agulhas de pinheiro, bagos venenosos de arbustos, chaves pequeninas de diários onde eu escrevia umas coisas esborratadas e pejadas de erros porque mal soletrava (u meu Tomás! - lembrava-me bem dele), os próprios diários, um par de sapatos do meu irmão bebé - não tinha querido esquecer-me que ele coubera ali! - e um monte de coisas engraçadas. Todas as caixas guardadas tinham dentro as minhas preciosidades de miúda. Só aquela estava vazia. E eu sentia-a tão cheia, tão densa…
Voltei a deixar tudo no cantinho do armário embutido ao longo do corredor enorme de casa da minha avó Brígida, que na altura me concedera uma prateleira para guardar as minhas coisas - um privilégio!

Desci as escadas devagar, saí pela porta da frente e segui pelo passeio, sem prestar atenção. Sentia-me prisioneira na caixa vazia, agarrada por algo que houvera nela e mexia dolorosamente numa verdade que eu não ignorava – a de que sofrera muitas modificações profundas. E essa verdade, velha conhecida, não sei porque me doía tanto. Pensava também, já quase a chegar perto do mar bravo, que escusava de ter estado em contacto com algumas coisas. Não me importava sequer com a maioria delas… mas nem sempre fora eu, destemida, a estender a mão para a chama.

© Fata Morgana




Imagem de Pamela Jaeger

11 comentários:

Lord of Erewhon disse...

Este canto é mais fundo. Mudaste. «Quando em contacto, sofrem uma modificação profunda.» Temo-nos tocado uns aos outros, sem darmos por isso passaram anos. Eu, tu, o Goldmundo, a Gotika, somos bons escritores, com uma anátema: este escuro, estes blogs com «bonecos». Nenhum de nós é já criança, nem a Gotika, que é a mais pequenina [:)] de nós e, depois, há mais gente, meninos e meninas de escrita de grande qualidade.
Ultimamente ando com umas ideias - deve ser mesmo já um cume prateado da loucura -; há gente com a mania que escreve algo de meritório que me irrita; uns intelectuais borra-botas, etc! Acho que deveríamos fazer algo mais.
Tentar definir aqui um «paideuma gótico», porque existimos e acredito que temos importância literária. Talvez um blog conjunto, seleccionarmos textos nossos, algo do género, passarmos um crivo exigente nos blogs de alguns meninos e meninas (esta merda é fodida, porque ficará sempre muito amiguito de fora, etc).

Pensa nisto. Ando com muita vontade de atirar penicos cheios no focinho de muito intelectual de sanita cá do Portugalório.

Dark kiss.

Lord of Erewhon disse...

Errata: um anátema.
:)

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
Vi-te agora cantando para gáudio dum nobre, que não sabia sequer o que custa fazer música...
Quando deixarás de ser trovadora?... :)
Um beijo
Daniel

Morgana La Folle disse...

O outro canto tem sido o único. Criei-o para ter todas as facetas, o claro e o obscuro, o lado visível e o oculto. O que penso e sinto, misturado com o que me acontece e acontecem-me coisas quase exclusivamente exteriores a mim. Exemplo: por ser distraída vejo-me em situações bizarras, mas acho-lhes graça e gosto de as contar. Só que ali já não cabiam, porque o lugar escureceu, já não é, sequer, azul. E deve voltar a ser - o que não significa que se torne num lugar para as minhas anedotas, pois o obscuro também lá estará, sempre.

Aqui vai ficar só o íntimo, o sentir em carne viva. E não tem nada de azul.

Quanto à tua ideia, tens razão e não me ponho de fora. Mas sabes que não tenho uma coisa que tu, a Gótika e o Goldmundo têm. Eu sou bárbara, medieval. Não estou a par do que acontece no mundo, não tenho paciência, tenho visão selectiva, vejo o que devia ser e não o que é. Vocês são tão lúcidos!
Terei de ser «la folle» :)

Morgana La Folle disse...

Daniel, estás a falar da música que está no Claro Obscuro? É dos Dead Can Dance :)

Luís Filipe C.T.Coutinho disse...

Voltei a encontrar-te

beijos

Lord of Erewhon disse...

Sabes que eu sofro de excesso de ideias, quase todas tresloucadas, mas pode ser que me saia assim a forma para executar a coisa sem grandes chatices... enfim, não sei é se os dois alinhariam, o Gold anda meio out e a Gotika nas cruzadas pelos bicharocos e etc...

Dark kiss.

Morgana La Folle disse...

Luís Filipe Coutinho,
pois... cá estou eu. :)*

Morgana La Folle disse...

Pois, eu também penso que és louco, como eu. Mas não deixas de ser tão lúcido!
(Convém esclarecer que eu acho os loucos hiper-lúcidos; os apenas lúcidos são os do raciocínio inteligente comum) :))

E, pensando bem, o Goldmundo e a Gótica também são as duas coisas, como tu.

Dark kiss.

Goldmundo disse...

"vejo o que devia ser, e não o que é".

Ora, e aí está o mais importante de tudo, sim.

Monseigneur, j'y suis :)

Morgana La Folle disse...

Sim... sim! Mas também era muito importante ver o que lá está. Pelo menos para não parecer que estou noutro planeta, como tantas vezes acontece :)

E uma visão não impede a outra. Se me esforçar até consigo, mas é uma coisa que não está naturalmente em mim.