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15 de setembro de 2008



Eu era uma criança velha. Trouxeram-me à força, com ventosas, porque eu não queria nascer, não dei o grito porque não respirei. Estava morta. Não queria vir para aqui, não era o meu lugar. Mas, com muito esforço, reanimaram-me. E o resultado foi eu começar a chorar: Alívio para quem assistiu. Não para mim.
Conta a minha mãe que chorei 10 meses, um choro triste que a impressionava. Não era fome nem sede, não era xixi, as gotas para as dores de barriga típicas de bebé não me faziam parar. O mal estar era moral, eu chorava porque não me tinham deixado ir embora. Tenho a certeza.
Essa pena acompanhou a minha infância, lembro-me de preparar malinhas de brincar, mas prepará-las a sério, para me ir embora. Depois de prontas, não sabia o que fazer, desconhecia o caminho.

"O amor é a coisa mais importante" - descobri isso aos três anos e tive medo de nunca o encontrar. Sentia-me pequena e indefesa, sobretudo sozinha, e não imaginava como havia de chegar ao amor ou ele a mim. Também não sabia esse caminho, apenas sabia amar, sem ter a noção de que esse era, em si mesmo, um verdadeiro caminho.

Depois o tempo passou. Amadureci, ou reaprendi a maturidade. E agora sou a mesma criança velha que sempre fui, mas cansada e incapaz de fazer as malas, por causa das coisa boas que me acontecem. Sozinha, como quando me esfolaram a cabeça com as ventosas, ainda cheia de lágrimas que às vezes mostro e perturbam toda a gente, como se ver chorar fosse mais desconfortável do que ver rir. E sempre certa - cada vez mais! - de não ser daqui.

© Fata Morgana

19 comentários:

Psiquê disse...

Curioso e familiar...Também eu nasci assim...Sem chorar...

Costumo dizer que devo ter pensado: "Chorar logo no primeiro dia? Nããã...Tenho muito tempo para o fazer..."

Vinha com o cordão umbilical á volta do pescoço a asfixiar-me, toda roxa e quase morta...

Depois quando me conseguiram "libertar" (estranha palavra que eu agora escolhi...)chorei noites sem parar...


Acho que ao nascer já sabias que ninguém é realmente daqui, mas todos temos que passar por cá...

Ainda bem que voltaste! :)

***

biazinha disse...

A minha história também é meio inusitada: minha mãe não podia engravidar, daí aos 30 anos descobriu que estava grávida de mim, e com 3 meses de gestação, pois menstruava. Quando chegou a hora de dar a luz, eu não queria sair da barriga dela por nada e cheguei a entrar em sofrimento fetal. Teve que ser cesariana mesmo. Ao nascer, eu e mami tivemos que fazer exame de sangue, pois corríamos o risco de infecção porque eu podia ter engolido o mecônio. Andei rápido, com 10 meses. Entretanto, custei muito a falar, a ler, e escrever e tinha muita dificuldade para aprender. O fato de eu ter aberto o meu blogue as 13 anos foi porque eu não conseguia me entender com as regras ortográficas, e minha mãe aplicou em mim um método chamado redablog, que ela usa com os alunos dela do ensino público. Inicialmente qualquer post meu tinha que ser feito via Word para que eu aprendesse através dos erros mostrados por este.
Todo esse blábláblá é pra ratificar que realmente "O amor é a coisa mais importante". O amor é sempre uma força!
Beijos.
PS: Nasci chorando muito, e continuo chorona até hoje. LOL!

PPS: Gosto muito mais da tua prosa, ela é um dom natural teu.

Morgana La Folle disse...

Psiquê,

não me admira nada que te custasse a nascer. Mesmo nada. Já reparei que isso acontece com um certo tipo de pessoas :)

Um beijo grande!

Morgana La Folle disse...

Biazinha,

:))) que surpresa deves ter sido!!!! E que boa surpresa! :)

Chorona e risonha. São coisas boas, ambas. Nunca percebi porque quase toda a gente se envergonha de chorar e até quem assiste toma uns ares constrangidos, como se chorar não fosse tão natural como rir.

Pois, também eu gosto muitíssimo mais da minha prosa (quase sempre poética... mas não sempre). Obrigada pelo teu interesse e pela tua opinião, Bia.

Dark kiss

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
Nasci e, consta, que também resolvi deixar de respirar... :)
Uma coisa sei, não somos daqui, isto é só passagem. Eu não entendo é para quê e porquê. Mas suspeito, ou quero acreditar, que depois saberei um pouco mais, do outro lado... :)
Um beijo e bem-vinda ao clube dos arroxeados à nascença.
Daniel

Morgana La Folle disse...

Daniel,

LOL adorei os "arroxeados à nascença"!!!

Deixa-me só corrigir um ponto: eu não "deixei de respirar", nasci roxa e não respirava.

Um beijo.

Blood Tears disse...

No meu nascimento não ocorreram circunstâncias diferentes da maioria. A única coisa diferente, é que os meus pais tinham 20 anos de diferença um do outro, e casaram já tarde. Mas por isso mesmo acredito que há coisas que tem que ser, e pessoas que tem de se encontrar....:)
Quanto ao amor, acho que é a minha razão de viver, e será sempre... Quando eu deixar de amar, de sentir e de chorar, não sou eu, e se assim fôr, não tem piada... Chorar faz-me bem, lava-me a alma, as lágrimas são o meu desabafo. As lágrimas e as palavras....

Gostei muito de ler... ^^

Blood Kisses

Zé António disse...

Querida Fata,

Precisas de um beijo vindo bem do Norte.
Aqui fica, só para ti.

mariazinha disse...

mais uma para os "arroxeados à nascença": dentro do ventre da minha mãe dei tantas voltas (acho que já dançava) que arranjei maneira de dar duas voltas ao meu pescoço com o cordão... bateram-me para chorar (isso faz-se?!?) e eu chorei... ainda hoje reclamo se valer a pena e me pisarem os calos...

;)

gosto muito de te ler*

Morgana La Folle disse...

Olha o Zé António!!! :)

Sim, o Norte, o nevoeiro e o granito; e o Douro que fala comigo.

Um beijo.

Morgana La Folle disse...

Então bem-vinda :)
Somos um grupo considerável - conheço imensos que não estão aqui - e, sabes, são todos pessoas um pouco estranhas. Podia colocar uma palavra. Mas não gosto de rotular. Somos diferentes...

Também gosto de te ver aqui! E de te visitar, coisa que ainda não retomei - as visitas! - e me faz tanta falta. Mas espreitei e gostei da tua tribo :)

Um beijo.

Psiquê disse...

És tu na foto?

Bjo :)

biazinha disse...

Morganaaaaaaaaaa, minha fata:

Tu vais é me deixar roxa de saudades, isso sim!:)

Morgana La Folle disse...

Psiquê

Não sou eu na foto. Esta foto fascina-me, não sei de quem é, tenho-a há imenso tempo, muito antes do meu outro blog que é de 2003. Eu guardo imagens de que gosto, mas dantes, como não ia postá-las em lado nenhum, não me preocupava tanto em procurar a autoria. A partir de 2003 comecei a identificar tudo :)

Beijo*

Morgana La Folle disse...

Biazinha! :(

Tens razão e eu também estou cheia de saudades.

Vou ver se daqui a pouco - mais para o fim da tarde - tenho um bocado para te ir visitar e escrever :)

(Agora é só uma pausa para café...)

Beijo*

bat_trash disse...

Não tive complicação alguma pra nascer, no reino dos animais não-humanos é tudo mais simples: ou se nasce vivo ou se nasce morto. LOL!

Bat Beijo.

PS: Saudades!

Morgana La Folle disse...

Oh Bat!

Mas eu adivinhava, só por te ler!, que nascer foi coisa que tu tirou de letra :P

Bat-beijo

:)

gotika disse...

Eu também já nasci roxa e tardia. Mas respirei logo. Já que não podia fugir do karma, o melhor era desatar logo a fazer berreiro. Ainda hoje não me calei.

Morgana La Folle disse...

Gotika,

só hoje dei por ti aqui :)

Eu sei. Já falámos sobre isto, lembras-te? Os góticos nasceram quase todos roxos e muito contra vontade!