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5 de outubro de 2008

Imagem de Albert-Joseph Pénot


A mulher deitada na areia escura, os cabelos misturados no quase lodo. E o rio tão perto.
Ela ouve passos mas são apenas as folhas de outono a cair. Não há ninguém.
Os monstros feios farejam-na, há tanto tempo. Segredos escusados, porque os conhece, mesmo sem ter querido desvendá-los; palavras que não entende, apenas porque não quer, não quer, não queria... E medo. Um medo profundo, que vem precisamente do que conheceu sem vontade e também daquilo que entendeu, mesmo não querendo.
A total falta de nexo, quer no silêncio emprestado dos segredos, quer nas palavras com que cala as outras palavras que não queria. Coisas que a impelem a rebolar até ao rio e esquecer que sabe nadar. Como se não fosse a senhora das águas, como se pudesse afogar-se.
Não pode.

© Fata Morgana

34 comentários:

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
De repente, escreves de seguida... a ficção, a vida que não te absorve... claro que nadarias, pois a desesperança não impede que a força da esperança prevaleça... assim a luz seja apaziguadora das sombras que o mundo projecta sobre nós...
Um beijo
Daniel

Gotik Raal disse...

Morgana,
É algo que realizo sempre com estranheza, como o conhecimento pode ser uma espécie de maldição. No teu texto a sensação dessa estranheza, dessa maldição, parece-me perfeita. E curiosamente lembrou-me de um certo episódio bíblico, no jardim do Monte das Oliveiras...
gotiKKiss

(quanto á tua pergunta, claro, "teu" em vez de "seu")

Paradoxos disse...

Sabes?
afoguei-me nas tuas palavras!!
agora?
preciso de uma respiração palavra a palavra!!

ler-te não é um prazer - uma prazer é pouco - infinitos de prazer é o que é!!


teu beijo
Eduardo

biazinha disse...

Será que foi opção dela permanecer na areia escura, no lodo enquanto poderia ir ao lago ao lado para desanuviar-se do incomodo ou estava em impotente letargia?
Talvez os próprios monstros a mostrem o caminho da mobilidade, nem tudo que parece ameaçador representa um perigo de fato. Valorizar limites é estendê-los ainda mais.
Beijos.

biazinha disse...

Eu comi umas vírgulas no comentário que fiz ao post...depois fico criticando a Bat...;)

Morgana La Folle disse...

Daniel,

não me tenho esquecido de me lembrar que o tempo é um tirano que nem sequer existe... e tenho-lhe trocado as voltas.
A realidade, que é o que se vive mesmo, sem necessariamente haver o gesto que lhe corresponda, está para lá da ficção.

Um beijo*

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Gotik raal

"(...), como o conhecimento pode ser uma espécie de maldição."

Por vezes é.
Reduzindo a ideia ao básico dos básicos: sempre achei que os ignorantes, e principalmente os burros, são muito mais felizes. Desde que saudáveis e com uns trocos no bolso, não dão por nada...!

Obrigada pelo "tu" e um beijo de amaldiçoada :)

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Edu!

agora já deves ter nadado, espero... Depois de tanto tempo longe, não vinhas aqui afogar-te, era o que faltava!

Obrigada e bem-revindo!

Beijos*

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Biazinha,

"nem tudo que parece ameaçador representa um perigo de fato"

A verdade é que quase nunca representa.


Outra verdade é que comeste umas vírgulas porque és gulosa! :)))

A Bat deve andar por aí a voar, entretida sabe-se lá com quê, pois não apareceu aqui!! Não desfazendo, senti-lhe a falta!

Beijos*

bat_trash disse...

Tudo pode ser perigoso ou inofensivo, dependendo de como lidas com o sentimento com relação ao objeto do teu medo. Eu quando era miúda tinha medo de entrar em elevador, o pânico era tanto que eu poderia morrer, não porque o elevador seja perigoso, mas porque meu sentimento poderia me matar, literalmente.
Um sentimento te paralisa apenas se não sabes lidar com ele. Somos os nossos maiores carrascos... Viver não é simples.
Ah, sumi ontem porque estava no Bar de Ossain na companhia do lenhador psicopata e do vampiro de caninos quase aposentados. Ta aí, eles dois são bons exemplos de algo que parece perigoso, mas que de fato não é. JAJAJAJAJAJAJAJA!

BAT KISS.

PS: Gostei do novo visual de tua casa.

biazinha disse...

Como o conhecimento pode ser uma espécie de maldição.Curioso, um dia uma frase ficou a me martelar as idéias: a ignorância liberta!A razão foi à seguinte: um amigo da nanãe descobriu ser portador do vírus da Aids, assim que tomou conhecimento da enfermidade, passou a contraí-la. O vírus já estava alojado em seu corpo por dez anos, porém, o saber do fato acarretou a eclosão do mal e ele passou a contrair todas as doenças oportunistas.
Beijos.

Morgana La Folle disse...

Bat,

claro que somos os nossos maiores carrascos, disso não há dúvidas.

Aqui não estou a falar de medos como esse, do teu exemplo dos elevadores, nem de coisas perigosas com que tenhamos de aprender a lidar.
O verdadeiro perigo presente é o dos monstros, que estão dentro. O que causa medo é o que eles fazem com o "conhecimento de", que eles próprios nos deram. Há coisas que sabemos sem o querer e depois não há o que fazer com esse conhecimento indesejado.

Também não há aqui qualquer paralisia. Há, sim, quietude. Um "não querer", mais do que um "não saber" lidar. O não querer é repetido muitas vezes para dentro. Como a falar baixo, para dentro, para os monstros. Para os aquietar, também a eles. A pedir-lhes misericórdia.

E os monstros... oh confundo-os com os anjos, muitas vezes. Por vezes dizem-me e mostram-me coisas que hesito em classificar como de anjo ou de monstro.

A propósito, acredita que não sou psicopata! :))

Bat kiss.

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Biazinha,

Pois foi, o Gotik raal pôs o dedo na ferida com essa frase que citaste.

Esse caso que contas é bem impressionante. Se esse amigo de tua nanãe não tivesse sabido, continuaria a sentir-se saudável.
Mas aí eu gostaria de saber e combater. Espero que ele o tenha feito!

Tás gira, na foto de gorro. Também gosto da outra, do piercing :))))))
És mesmo mafarrica!

Beijos

biazinha disse...

Eu entendi o texto, mas sempre que interpreto às vezes me desvirtuo para um outro lado. Eu adoro falar de monstros, covas, quietudes, entretanto, toda vez que interpteto acabo puxando a brasa para algum lado que me chama a atenção, que pode estar relacionado à questão, mas ainda assim nada a ver com ela...LOL!
Esse amigo da nanãe combate a doença com coquetel, porém, está aposentado por depressão.
Ahhh, esse gorro eu peguei emprestado de um colega lá no Rising Rock para tirar esse foto.
Sinto necessidade de mudar sempre. Por isso vivo mudando de template, foto, música de perfil...fazia muito isso quando eu tinha blog. Na vida real gosto de mudar posição de móveis, cor de cabelo...etc, etc, etc.
Beijos.

João Norte disse...

Como se não fosse senhora de si.


Há tempos que procurava a "fata"
finalmente encontrei-a
Um abraço.
PS. tenho nova morada. http://joaonorte.com

Casimiro Ceivães disse...

Carta: a Lua.

Beijo, Morgana*

Ruela disse...

trocar as voltas ao tempo é uma boa ideia ;)

Morgana La Folle disse...

Biazinha,

eu sei que entendeste... e sei que não! :)))

É isso que me fascina na escrita; há o texto e o que está por detrás... que às vezes se esconde muito bem.

Beijos*

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João Norte,

pois é, aqui estou eu. Mas não fechei o Claro Obscuro! Nunca o faria, escrevo menos lá mas escrevo. E conto escrever mais ainda, em ambos.

Hei-de ir espreitar o teu novo "pouso" :)

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Casimiro,

a Lua. Sobretudo o lado oculto. Mas sempre a Lua.

Carta certa, pois!

Beijo*

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Ruela,

pois claro que é!
Mas ainda assim não deu para ir à tua exposição! :(

*

mariazinha disse...

E se pudesse... quereria?

(estas coisas que escreves e que fazem a gente esgravatar na alma...)

:)
beijo*

Gotik Raal disse...

Morgana, obrigado pela visita e pelo "caminho"!
Quanto a "Como o conhecimento pode ser uma espécie de maldição", referia-me em particular à implicação moral que por vezes advém do conhecimento, através da responsabilidade: de agir, ou deixar de agir, de decidir ou deixar de o fazer.. mas claro que que a frase tem muitas leituras e foram bem interessantes as várias interpretações.

Morgana La Folle disse...

Se pudesse, aparecia inesperadamente um tritão e ela esquecia-se de se afogar :)



(Esgravatar na alma é o que mais gosto de fazer...)

Beijo*

Morgana La Folle disse...

Gotik raal

Nada que agradecer. Eu faço partir daqui os caminhos que acho bonitos e bons, para que quem aqui passa se sinta numa bela encruzilhada!

biazinha disse...

Eu matei a charada do texto da Bat. Vou te dar um dica: se tu misturares todas as cores de uma aquarela, que cor terás?
Quando ela dormia todas as cores se misturavam, e por causa desta mistura é que a página estava sempre em branco quando ela acordava.
Beijos.

PS: só vou comentar ao final, pois, ninguém entendeu...rsrsrs.

bat_trash disse...

Dar cola não vale, dona Bia...vou mandar te prender por quebra de sigilo. LOL!
Saudades de tu, fadona!

Bat kiss.

Morgana La Folle disse...

Ó Bia, mas isso era óbvio!! A mistura de todas as cores é o branco, por isso é que eu falei em refracção da luz! :)))

Vou contar-te um segredo muito meu: nunca digo exactamente o que é, digo sempre como dói.

E agora vou dizer-te uma coisa, aqui entre nós, que a Bat não ouve:

Quando eu era miúda cismei que isso era uma grande aldrabice. As minhas primas mais velhas aprenderam mal essa "treta", de certeza, achei eu, ou querem-me enganar...
E, vai daí, peguei nos meus gouaches - ainda por cima, eram gouaches!!! - e misturei tudo. Sabes de que cor era a paparoca final? Castanha, de um tom feio de fugir :))))

Por isso a história dela tá errada: a folha devolvida é castanho esquisito! ;)

Beijo*

Morgana La Folle disse...

Errr.... olá Bat.

Não te vi aqui (tosse...). Não leias o que eu escrevi à Bia, não? É coisa trivial, não tem importância e seria uma perda de tempo!

Bat-beijo







(Ufa! acho que fui convincente. Espero que ela caia nessa... :))))

biazinha disse...

Eu não sabia disso. Ontem eu estava em tempo vago. Daí peguei todos os meus gouaches, misturei todas as cores e obtive uma página em branco. contei na hora pra Bat, e ela achou que isso merecia um texto. Por isso que gosto dessa morceguinha: conto tudo pra ela, e ela transforma em poema ou em narrativa. LOLLL!
Agora é que vi esse conceito da refração de luz. Eu jurava que se eu misturasse todas as cores ou obteria uma cor escura, como preto, marrom. Fiquei tão excitada.A professora ria à beça, pois parecia que eu havia descoberto a pólvora sem fazer barulho. Todo adulto sabe disso, mas eu não. Descobri sozinha.

Morgana La Folle disse...

Pois, é Bia, então o arco-íris não é isso - a visão das cores em separado?
Por isso é que disse no blog da Bat que as cores tinham sido tomadas directamente do arco-íris - e se soubesse que a "ela" da história dela eras tu, tinha dito coisas bem mais bonitas sobre a magia da pintora.

A tua experiência de gouaches deu certo, correu muito melhor que a minha! Imagina, claro que fui "provar" às minhas primas como estavam enganadas e quem estava enganada era eu com a minha papa castanha! LOL

Beijos*

Blood Tears disse...

As decisões implicam tão pouco, mas há por vezes aquele terror secreto e obscuro que gela e congela e deixa imóvel quem não confrontou os mostrengos..... Sim, porque eles andam sempre aí, a rondar.... A água ali tão perto e não se afogam eles também...

Maravilhosa reflexão querida Fata!

Blood Kisses

Morgana La Folle disse...

Os mostrengos a rondar e eu a rodar à volta deles, a escolher o mais assustador para dançar! :)

Gosto de monstros.

Obrigada!

Blood kisses

Ruela disse...

no problem ;)


certamente virão mais e talvez mais........perto ;)



bjs.

Morgana La Folle disse...

Ruela,

pois, só que eu gostava de ter ido. Mas ainda bem que virão mais e mais perto!

Beijos*

Vertigo disse...

God is in the house

Morgana La Folle disse...

Vertigo!

Que bom teres deixado esta História aqui!

Obrigada**

0.04 disse...

as coisas que não queremos ver, embora delas saibamos, encontram-nos sempre pelo faro,

as coisas de que não queremos fazer nexo procuram-nos, e sobem como a maré

Morgana La Folle disse...

0.04,

concordo absolutamente com a tua primeira afirmação. Mas aqui é mais um "não queria"... Já não há a rejeição explicita do "não quero" inicial.

Quanto ao que afirmas em segundo lugar, acho os casos de nexo (ou falta de) são passíveis de vários desfechos.

0.04 disse...

sim, concordo...
mas pelo menos comigo não há desfecho enquanto não há um nexo qualquer...

Morgana La Folle disse...

0.04,

eu não tenho lá muita paciência...
Quando falta o nexo, às vezes mando tudo passear! Outras vezes não ligo e outras ainda fico divertida ou chateada. Ui, assim acabam por ser possíveis vários desfechos... ;)