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21 de novembro de 2008


Desconheço o autor da imagem

Os dias passaram. Muitos dias. Não sei se somaram semanas, meses, ou mesmo anos. Isso nunca me interessou, o nome dos dias que se agrupam nunca me disse nada. Afinal o tempo é mesmo relativo, e a ideia que se faz de uma semana é tão completamente vazia... Nunca vivi segundo essas contagens.

Junto dele, solitária, aproximei-me da árvore-do-pão e alimentei-me de toda a substância que colhi. Todas as noites punha a mesa e jantávamos, felizes, trocávamos eus numa atmosfera de outro mundo. Olhávamo-nos, riamos e conversávamos, sintonizados nas coisas desse outro mundo, que às vezes também nos calavam. Bebíamos o vinho dos deuses e comíamos as iguarias que eu fazia conforme os anjos diziam que as fizesse, e eu quase não provava. Estava saciada. Mas ele vinha faminto e era uma delícia vê-lo comer com grandes garfadas.
Aquela casa tornou-se a minha. Nunca soube ter casas e geri-las mas creio que o fiz como não me sabia capaz de fazer.

Ele ia e vinha, e percorria as ruas onde antes eu o seguira como uma cega, cheia de outros sentidos muito mais apurados do que a visão do olhar...
Quando ele não estava em casa, eu ficava horas na biblioteca - que afinal não era gémea da minha, era mais como uma irmã parecida mas muito mais crescida, mais sábia e completa. Esperava-o e sentia-me um pouco perplexa com tudo aquilo, um pouco estranha. Depois recebia-o e era transportada para os livros, que ele trazia sempre, para as histórias que me contava... e eu encorajava-o a contá-las. Era o melhor contador de histórias que jamais ouvira. Quase me adormecia os medos no embalo dos sonhos que criava para mim. Deixava-me pronta para o amar.
As noites passavam depressa demais, nós misturados, e a casa, cúmplice, aceitando-me como alguém que devia ter chegado há muito tempo mas finalmente estava ali, tão tarde. Todos os horrores de tantos anos, talvez tivessem sido desnecessários, se eu tivesse chegado mais cedo, mas não havia repreensões. Talvez porque eu estava tão exausta como o encontrara a ele, e a demora causara dano aos dois. Tínhamos de aprender a rasgarmo-nos, um e outro. Um ao outro.

Entretanto passavam-se os meus dias, que eram demasiadamente longos. As idas à mercearia, escolher fruta, legumes, queijo, vinho. O jornal. Um passeio no jardim. Isso era bom.
Mas depois regressava à biblioteca, sentava-me numa almofada a ler e nem sempre conseguia concentrar-me. Havia o medo, palpável. Era como um terceiro habitante naquela casa, e conhecia o poço escuro dele. Eu também tinha um poço escuro, meu. Perguntava a mim mesma se ainda seríamos capazes de nos debruçarmos nesses buracos negros cheios de monstros e seres límbicos, e sabia que era fundamental que o fizéssemos, para podermos ser um. Termos alguns monstros comuns, defendermo-nos dos perigos que nos ameaçassem, sem nenhum de nós estar ignorante de que existiam. Aceitar o que não pudesse ser mudado; expulsar os demónios que soubéssemos que podíamos vencer juntos. Sabia que tinha de ser assim, mas não gostava nada de falar dessas coisas dolorosas, porque ambos as queríamos esquecer.
Estes eram os dias... Sim, os dias deixavam-me muito cansada de pensar em tudo isto.

Mas depois ele chegava, novamente. Havia aquele abraço impossível de dizer; ele regressava sempre a casa como se viesse de muito longe cheio de saudades minhas, e dissolvia o penedo frio que cada dia tinha deixado no meu peito... e eu ficava silenciosa, nunca queria estragar o momento. E não me arrependia. Até ao dia seguinte...

© Fata Morgana

20 comentários:

Frankie disse...

Isto, tudo isto me é dolorosamente familiar...

Morgana La Folle disse...

Olá Frankie. Que bom encontrar-te aqui :)

Ando a contar esta história desde Abril, este já é o quarto texto. Não é uma história triste, pelo contrário. Mas as personagens conhecem bem as sombras e o lado negro. E tu também conheces.

Dark kiss

Frankie disse...

Olá minha querida...
Cá estou. E, acredita, vagueio por cá mais amiúde do que julgas. No entanto, há palavras que prefiro deixar intocadas.
Há textos que têm uma alma própria e, a esses, é difícil acrescentar o que quer que seja.
As tuas palavras são assim.
Talvez por isso, a minha forma de as saborear seja em silêncio.

Dark kiss*



PS: Tenho que vasculhar os textos mais antigos para encontrar os restantes...

Enquanto existirem as noites, não será uma história triste

andorinha disse...

Olha, sabes?
A Frankie disse o que eu andava a tentar dizer-te há muito sem encontrar as palavras:)
É mesmo isso, os teus textos têm uma alma e um toque tão peculiares que é difícil acrescentar seja o que for.
Por isso gosto de os saborear também em silênco.

Beijo grande*

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
Mais um toque mágico na descrição dum tempo sem tempo.
Um beijo
Daniel

Blood Tears disse...

O saborear cada instante adia sempre o planeado.... Oh, como me revejo em tempos idos, nos poços obscuros e nos monstros que nos acompanham......

Sabe sempre tão bem poisar nas tuas Terras... :)

Blood Kisses

bat_trash disse...

Lembrei-me logo que li o primeiro parágrafo que esta começou no dia 13 de abril deste ano. Tu deverias fazer etiqueta ao menos para esta história, pois eu mesma quis reler, entretanto só lembro da data do começo.

Bat Kiss.

bat_trash disse...

PS: A Frankie é uma lindinha!

bat_trash disse...

PPS: Hoje é aniversário da Tia Andorinha.

Gotik Raal disse...

Morgana,

Uma história bem negra, esta, toda do interior. Do coração amplificado.
Boa de ler; sobretudo porque aquilo que é vivido por outros, ainda que nas histórias, de algum modo nos liberta a nós de parte desse mesmo peso...

Quando se trata de emoção, as tuas cartas são sempre bem entregues, não há extravio possível.

Beijo,
Gotik

akasha disse...

Ah, eu sei as datas dessa história:
13 de abril - 1ª parte
03 de junho - 2ª parte
04 de julho - 3ª parte
21 de nov. - 4² parte

Estás vendo, sei melhor que a autora. LOL!

Beijinho.

Vertigo disse...

Eu não li a história desde o inicio,mas nem é preciso.Esta parte já diz tanto (...)

Um beijo.

Morgana La Folle disse...

Frankie,

"Enquanto existirem as noites, não será uma história triste"

Dizes que te é difícil acrescentar o que quer que seja... mas o que disseste parece mesmo parte do texto.
Frankie lindinha (a Akasha não me deu novidade nenhuma :)) espero que comeces mesmo a "tocar" no que escrevo, porque me entendes perfeitamente.

Dark kiss

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Andorinha,

Tu mesma já o tinhas dito, há tempos, com outras palavras mas o mesmo sentido.
Ah, mas que ideia, como se não pudesses ficar a curtir o texto em silêncio e depois deixar um beijinho; ou dizer o que sentes.
Por vezes vejo interpretações muito diferentes da ideia que o texto contém e isso é interessante, é como ouvir uma história muito diferente da que escrevi e, de repente, perceber que é a mesma sob um outro olhar.
Mas, de qualquer modo, o maior gosto é ter-te aqui! Ainda bem que falaste :)

Beijo grande, também*

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Daniel,

um tempo sem tempo, sim. É um desde sempre e para sempre que nunca quereria medir.

Obrigada e um beijo*

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Blood,

São terras perigosas para quem as habita... Gosto de caminhos perigosos.

O meu poço e os meus monstros, nunca os largarei, creio que o poço é a minha alma e os monstros são os meus anjos, por isso jamais serão "idos".
Às vezes gostava tanto de ser uma menina de vestido azul com uma fitinha no cabelo... mas não sei.

Beijos*

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Bat,

lê o que diz a Akasha! Ela sabe disto tudo, ainda se gaba de saber melhor do que eu :)))

Eu já tinha notado que a Frankie é uma lindinha, mas se leres o que lhe respondi verás que lhe fiz explicitamente justiça.

E fui dar um beijinho à Andorinha, sim. Obrigada por me teres avisado, porque eu não sabia e não queria ter faltado :)

Beijos, morceguinha

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Gotik,

deliciosamente negra :)

E ainda bem que libertadora dos pesos de quem a lê - essa é uma qualidade que nunca suspeitei aqui presente.

O coração amplificado, a emoção. Corpo e alma de tudo o que escrevo!

Beijo

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Akasha,

LOL

Tu és uma bruxinha mesmo solidária e muito travessa. Isso é bom, eu não gosto nada de santinhas :)))
Acho-te fantástica! Obrigada pela ajuda.

Beijo grande*

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Vertigo,

Obrigada! Eu também penso assim, cada trecho é como se fosse completo (no sentido de não precisar de um Antes ou um Depois).
Porém existem três Antes e há-de haver não sei quantos Depois. Daí ter-lhe chamado "trecho" :)

Um beijo*

Luís Filipe C.T.Coutinho disse...

Não vivemos sós por mais que por vezes nos pareça que assim é. Não,estamos sós no meio de todos, não estamos sós pois os nossos medos, os nosso desejos as nossas sombras, sim as nossas sombras pois tal como o nosso reflexo no espelho nem sempre nos mostra os mesmos sentimentos, também a sombra se transforma, por isso temos várias... Não estamos nunca sós enquanto no revermos em algo que nos pertença. Se trocarmos os nossos medos perdemos a ilusão de que estamos sós...

Um beijo com forma de
"abraço sombra"

Luís Filipe C.T.Coutinho disse...

Não vivemos sós por mais que por vezes nos pareça que assim é. Não,estamos sós no meio de todos, não estamos sós pois os nossos medos, os nosso desejos as nossas sombras, sim as nossas sombras pois tal como o nosso reflexo no espelho nem sempre nos mostra os mesmos sentimentos, também a sombra se transforma, por isso temos várias... Não estamos nunca sós enquanto no revermos em algo que nos pertença. Se trocarmos os nossos medos perdemos a ilusão de que estamos sós...

Um beijo com forma de
"abraço sombra"

O exterminador disse...

O ESQUADRÃO ANTI-PLÁGIO AGRADECE A SUA EXCELENTE PARTICIPAÇÃO.
Obrigado por tue valioso contributo!

Beijo grande.*

Antígona disse...

Morgana, muito profundo e belo o que escreveste, não é fácil voltar atrás quando há pedras a bloquear o caminho, mas mais difícil ainda é transformar esse percurso de pedras e a própria memória das memórias em Arte, o que na minha opinião conseguiste neste texto, com naturalidade.

Beijinhos* :)

P.s.: Um minuto em teatro é uma eternidade...

Antígona disse...

P.p.s.: O meu blog mudou de endereço, apesar de ser o mesmo, agora é: www.comboiodameia-noite.blogspot.com :)

Morgana La Folle disse...

Luís Filipe Coutinho,

"Se trocarmos os nossos medos perdemos a ilusão de que estamos sós..."

Mas será por pouco tempo...

Dark kiss

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Exterminador,

não me agradeças :)
O anti-plágio é uma das minhas causas, e nesse sentido trabalho sempre por gosto!
Conta comigo, sempre.

Beijo grande.

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Antígona,

Obrigada. É tão bom ser lida com igual naturalidade! (É isso que estou a agradecer-te :)

Dark kiss

PS. Vou alterar o link;)

Gittana disse...

Seu "pints" essas coisas? as imagens são lindas ...

BEIJOS

Etterna Tanay