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17 de novembro de 2008


Imagem de Leah

Sou quieta e aparentemente tranquila. Os vulcões e as tempestades de neve, vivo-os sem pestanejar, enquanto penso - ah, isto é tão meu, ainda e sempre! Mas depois lembro-me que já existiam muito antes de mim... Não me pertencem. Sou eu que lhes pertenço, a atracção reside em mim, não neles. E é fatídica.
Sou um fogo que se pode tocar sem se ficar carbonizado, um gelo que se pode sentir sem se morrer de frio, porque é a mim que queima e gela.

Gostava de possuir uma labareda que fosse, agarrar nas mãos tão brancas um pequeno cristal gelado, já que lhes sou tão pertença.
Andam sempre em mim as fogueiras e os frios porque os entendo; caminho sobre as brasas e as neves porque sou sua irmã, filha ilegítima de um insuspeitado encontro de Prometeu com Skaoi, de que nunca, nunca mais se falou, e só restei eu... sempre tão silenciosa.

Inquebrantável, afasto-me no meu trenó, recolho ao meu castelo glacial, como a Rainha das Neves. Mas tenho um coração de fogo, e esta mistura é que produz em mim estados tão funestos.
Longe de tudo e todos, deixo-me então derreter e, completamente liquefeita, quase evaporada, faço-me renascer pelo frio, num ciclo que não há meio de se interromper, já que apenas eu conheço. E eu oculto.
E Kay. Kay nunca existiu. Ou talvez sim... Havia uma palavra, creio que era "Eternidade". E também recordo vagamente um nome: Gerda.

© Fata Morgana

22 comentários:

bat_trash disse...

Pertencemos ao mundo...

"eu sonho o mundo; logo, o mundo existe tal como eu o sonho.” (Gaston Bachelard)




Há seres que do mundo da razão absoluta são apartados, por sonhar o real e vê-lo de outra forma.

Alienados assim do mundo dito "normal", esses seres ímpares constroem seu cotidiano dentro de seu próprio mundo.

Bat Kiss.

PS: Depois eu volto, isto é apenas um comentário de uma primeira leitura e esse texto é complexo.

mariazinha disse...

A Rainha das neves é um conto infantil que sempre me perturbou muito. E lembro-me dele sempre que encontro gente que parece ter o cristal de gelo dentro dos olhos...

Um beijo*

Ariel d'Angouleme disse...

Fez-me pensar.
(como muitos, mas hoje comento)

Não possuir uma chama poderá, eventualmente, arrepiar.
E não aguentar o gelo quando este nos ferve as mãos!
É possível ser-se são sem o dom de controlar o que nos é?
Que estado é esse que dança entre o "completa-me" e o "destrói-me"?
É a isso que dão o nome de "alma perdida"?
E a eternidade é tanto tempo!

Beijos***

witch disse...

Ouvi-te.
A eterna atracção dos opostos, num caminho que seduz... Irremediávelmente!
...

andorinha disse...

Vim visitar-te, caladinha:)
Está-se bem aqui.

Beijos*

0.04 disse...

Se não estou em erro, no capitulo 6 (carta VI; os enamorados) do Livro "A Magia que tira os pecados do mundo", Alberto Pimenta diz qualquer coisa como

Algumas tradições defendem que é o amor que faz rodar o mundo, outras dizem que é o segredo que faz rodar o mundo.


*

http://www.livroscotovia.pt/livros/ensaio/magia.htm

Nilson Barcelli disse...

Este teu auto-retrato é impressionante. Como já te leio há quase 5 anos, acho que te conheço um pouco. E vejo-te exactamente assim.
Para além disso és uma das poucas pessoas que conheço e que tem um nível de auto-conhecimento tão alto. Mesmo dos defeitos...
Tudo isto retirando os personagens que referes, tal como Skaoi ou Gerda, dos quais nunca ouvi falar...
Beijinhos cara amiga.

Nilson Barcelli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Morgana La Folle disse...

Bat,

Se aquilo que deixaste é um primeiro comentário e voltas com algo mais fundo, mal posso esperar, porque é verdade que construo o meu cotidiano dentro do meu próprio mundo - para usar as tuas palavras. Não te admires de fazer tanto parte dele, pois temos claramente uma empatia enorme.

Um beijo amigo.

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Mariazinha,

é um dos meus 3 contos favoritos. Mas a leitura que faço não costuma coincidir com a da maioria...
Eu gostaria que Kay ficasse com a Rainha das Neves. Até hoje, só a Ana Teresa Pereira, cujos livros devorei todos (incluindo os infantis), é que exprimiu a mesma opinião. Identifico-me muito com esta autora, até no caso da Rainha das Neves.

Beijo grande*

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Ariel,

Tens razão em tudo quanto afirmas.
Mas as perguntas, essas é que são de matar... Foi com elas que acertaste direitinho no coração do texto.
A eternidade é muito tempo, pois.

Beijos para ti***

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Witch,

é o caminho perigoso... Nada a fazer.

Dark kiss

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Andorinha,

Oh, não ficaste nada caladinha: disseste que se está bem aqui, disseste muito :)

Obrigada e beijos*

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0.04,

Aqui, seja quem for que detém a maior parte da razão, o mundo não pára de rodar, porque há amor e há segredo...

Vou espreitar o link, que te agradeço.

*

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Nilson,

ora, pois se ele (tu!) sabe que é um auto retrato, é batota descarada vir fazer o brilharete :))

A sério, vou ter de assobiar para o lado, se respondesse dizia o que não quero.
Mas fico muito contente de o teres dito tu, que sempre revelas apenas o que vês, e assim permanece comigo o que está escondido.

Gostei de te ver por aqui, volta mais vezes, Amigo desnaturado!

Beijo*

akasha disse...

Acabo de ler o conto a Rainha das Neves....perturbador!
O que foi o encontro de Prometeu com Skaoi? Eu conheço o mito de Prometeu.

Beijos.

Morgana La Folle disse...

Akasha,

a Rainha das Neves é um dos mais belos contos de sempre.
Prometeu jamais encontrou Skaoi - rainha do Inverno e do gelo na mitologia escandinava. Se fores agora ler a frase, percebes porque os juntei ;)

Beijos

PS. Skaoi escreve-se com um acento que o teclado não possui, é este ^ mas invertido, sobre o "o".

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
O teu eu nas roupagens de outras palavras, outras histórias, a mesma alma... e tu sabes que sei que tu sabes que assim é :)
Não almas perdidas... são almas que, sabendo que não é por aqui que sentirão a "eternidade", continuam a cumprir o destino que desconhecem, com uma esperança renovada e um sorriso matriro nos lábios, como quem diz: "eu sabia...", mas isso é só desejo, pois garantidamente o espanto será um facto quando realmente se apoderar da "chama gelada".
Um beijo
Daniel

Morgana La Folle disse...

Daniel,

"eu sei que tu sabes".... bolas, não sei nada, não faças de mim uma pessoa que sabe o que as outras pessoas pensam e fazem e sabem. Não sou. Eu vivo numa dimensão que é um "alhur"... desculpa.

Para tudo o resto te peço, também, as mesmas desculpas por não interpretar, Daniel. Não sei se é isso, não sei. Estou triste, perdi alguém, não quero interpretar nada, estou dentro. Isto fica aqui, exposto, porque não é nada que te magoe ou diminua em nada, é apenas uma reacção minha, só a mim expõe.
Tu andas por aqui há cinco anos, eu chamo-te "amigo".

Um beijo.

Blood Tears disse...

Fiquei maravilhada com estas palavras de gelo e de fogo, querida Fata.... Porque somos exactamente o equilíbrio dos opostos.... Como sabiamente referes, são eles que nos governam e não o contrário... pertencemos-lhes...

Blood and Dark Kisses

Ps. agora tenho q descobrir os contos para os ler, fiquei curiosa... ;)

0.04 disse...

sente-se isso,
a imagem diz isso, amor e segredo,
adorei,
e o texto está excelente.
brincar com o gelo
que também queima.

Vertigo disse...

"Sou um fogo que se pode tocar sem se ficar carbonizado, um gelo que se pode sentir sem se morrer de frio, porque é a mim que queima e gela"

Numa só palavra,BRUTAL!

Um beijo enorme.

Morgana La Folle disse...

Blood Tears,

:) a bruxinha Akasha já deixou lá na respectiva caixa de comentários as datas dos textos que fazem parte desse conto. Eu não me preocupo muito em ter etiquetas nem em informar que é a continuação de algo que venho escrevendo de trás, porque acho que cada texto também pode ser lido isoladamente. Mas ela tem razão. E vou pensar no assunto...

Dark kiss

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0.04,

Ui, não foi nada fácil encontrar uma imagem que me fizesse sentido aqui! Mas assim que vi esta, pensei que o tempo gasto a procurar tinha valido bem a pena. Ainda bem que gostaste.
Sim, o gelo também queima, e é uma queimadura que dói tanto... para depois deixar um calor-conforto.

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Vertigo,

:))
Bem, também me deixaste sem palavras!
Esquecendo o texto, digo-te que gostei de te ver por aqui.

Também para ti um beijo enorme*

0.04 disse...

é curiosa essa ideia da queimadura de gelo que deixa um conforto. Gostava de entender isso...

Morgana La Folle disse...

:)

Quando era muito miúda fui à Serra da Estrela - foi a primeira vez que vi neve - num passeio do colégio. O entusiasmo da miudagem era tal, que pararam a camioneta numa espécie de miradouro e deixaram-nos sair e ir brincar um bocado, a ver se depois seguíamos caminho mais sossegados.

Eu não tinha luvas. Andei a fazer bolas de neve com as mãos nuas. Lembro-me de acabar por não as sentir.
Quando voltei para a camioneta, as mão começaram a "acordar" e então senti picadelas fortes, não era nada agradável (mas também não cheguei a fazer queimaduras, isso não). À medida que o calor voltava às mãos, as picadelas diminuíam... acabaram por cessar. Por fim, tinha as mãos invulgarmente quentinhas... aquilo sabia mesmo bem :)

Era esta experiência que eu estava a relembrar quando te respondi e mencionei conforto. Mas é claro que a minha resposta foi tonta, devia ter pensado que estava a misturar uma recordação pueril com outra coisa totalmente diferente, sobre a qual escrevi no texto.
Aliás, o gelo queima de verdade, não é como a neve, gentil.

E pronto, aqui fica uma história privada, só para ti.

0.04 disse...

:)
deliciosa
história

*
obrigado...pelas tuas recordações. parecia-me que estava lá.

Morgana La Folle disse...

Mas não estavas. Nem eu. Aquela menina, é uma menina que já não há :(
Ler sobre ela ou pensar nela lembra-me a ligação que temos com as personagens dos contos de fadas...

Por isso é que é muito estranho eu ter ido buscar a recordação da queimadura-conforto. Na minha vida a linha princípio-fim tem uma estranhíssima "quebra"... Não tenho acesso a essa fase do passeio na neve, é anterior ao que chamei de "quebra" (aos 5 anos).

Parece que este canto se tornou numa espécie de confessionário! :))

0.04 disse...

Como entender e integrar estas quebras?
eu também tenho a minha, as minhas, pelo menos 2, em que há uma barreira de "grades de fogo" ou grades de gelo, ou talvez mesmo grades de fogo e gelo...
Aos 10 e aos 20 anos.

Há um psicanalista inglês que eu tenho estudado muito profundamente, chamado Bion, que fala das "Caesuras" ao longo da vida, um termo tirado da métrica da poesia e da música.

*