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10 de novembro de 2008


Imagem de um teste do Quizilla

A castelã solitária, por méritos do seu cavaleiro preferido, vira-se obrigada a organizar um grande jantar de cerimónia. Não gostava de ver o castelo cheio de gente, preferia o eco dos seus passos nas paredes cujas pedras lhe devolviam amores e coisas suas, ou conversar com o garboso cavaleiro, com palavras serenas, entremeadas de silêncios cheios de sortilégios...
Mas, por ele, esmerou-se. Vestiu-se de anfitriã, escolheu a melhor baixela e os copos e talheres mais bonitos, bem como a toalha e os guardanapos mais delicados.

O jantar estava uma delícia. Depois de uma saborosa sopa de nabiças, o javali assado parecia uma iguaria dos deuses. O vinho, aromático, era ideal para fazer escorrer algo de mágico e subtil pelas gargantas dos convidados. Tudo estava certo para produzir um conforto que, apesar de tantos cuidados, não havia.
O que havia era um mal-estar incompreensível. Os presentes entreolhavam-se, uns com regozijo, outros com rancor. As conversas tornavam-se paradas, como se de repente as palavras estivessem a afundar-se num pântano invisível e só os ditos irónicos e despropositados se mantinham à superfície.
Alguns convidados pareciam estupidamente contentes com uma coisa qualquer invisível que enfurecia os outros. Depois instalava-se um silêncio carregado e reinava o tinir dos talheres sob muitas trocas de olhares divertidos ou hostis.

A castelã sabia que tinha feito tudo certo e estava um pouco distraída a saborear o jantar. Sabia que os convidados não estavam ali por causa dela e não esperavam que participasse demasiado. Pensou, vagamente, que eram um pouco estranhos... mas achava normal ser-se estranho. Ela também era estranha.
De repente, durante o gesto de levar aos lábios o copo de vinho, viu claramente através das pestanas baixas, e percebeu que não se tratava de estranheza, mas de outra coisa qualquer, violenta e negativa. Perturbada, passeou o olhar pelas pessoas à volta da mesa, enquanto, com a sua mão esquerda, pousava o copo. O seu vizinho, por sua vez, olhava-a com uma expressão que parecia mesmo de ressentimento. E ela de repente percebeu que se enganara.
- Oh, desculpe, eu usei o seu copo... Eu sou canhota, pus a mesa direita por vossa causa, mas...
- Canhota? - gritaram todos em uníssono.
Ela sentiu no ar um reboliço de vibrações contraditórias cruzando-se, tornando ufanos os que antes estavam zangados e raivosamente desapontados os que se tinham mostrado contentes.
- Sim, canhota - confirmou sem qualquer pejo, enquanto notava que sentara os convidados seguindo a devida hierarquia, mas ao contrário. O que deveria estar à sua direita estava à sua esquerda, e assim sucessivamente. Divertida, acrescentou: a minha mão principal é a esquerda.
Depois desta revelação, todos olharam a castelã e o cavaleiro festejado. Fizeram contas de cabeça, descobrindo-se sentados exactamente nos lugares que lhes pertenciam, uma vez que a dona do castelo era canhota.

O resto do jantar foi uma conversa sinfónica, de temas maiores e triunfantes a modular aos relativos menores, carregados de amargos venenos.
Ela também conversou bastante mais, uma melodia que ia improvisando e ao mesmo tempo vinha de muito fundo dentro de si. Na realidade nem sequer estava ali, tinha recolhido ao seu inaparente estrabismo. Felizmente também era estrábica!

© Fata Morgana

25 comentários:

Fragmentos Culturais disse...

... o 'estrabismo inaparente' é uma excelente fuga em suspensos momentos em que estamos, mas não ficamos...

É sempre bom lê-la!
Até sempre!

... também sofro dessa 'direita' vista em contrário plano!

Gotik Raal disse...

Morgana,

Se bem te entendo, uma muito boa metáfora da comunicação, dos tempos futuros, da desinformação, das pequenas velhacarias e em que, sobretudo, nesse espelho fosco, o julgamento precede o facto.

De regresso ao Castelo Sombrio, deixo um beijo.
Gotik Raal

Morgana La Folle disse...

Fragmentos Culturais,

sim, faz-me um jeitão... Ainda por cima tantas vezes tenho estado, sem ficar, por coisas da vida.

Bem vinda e obrigada!

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Gotik,

oh, e estes tempos futuros são tão completamente insuportáveis!!! :)

Tu, que também moras num castelo - a Catedral! - podes compreender.

Um beijo*

PS. Estavas tu aqui e eu lá, onde te deixei rosas, num grande cesto de vime.

mariazinha disse...

Ou como tudo é uma questão de perspectiva...
:)

Adoro as imagens que as tuas palavras me fazem surgir à frente dos olhos.

beijo*

Klatuu o embuçado disse...

Isto pouco intectual, mas deste-me fome... dupla... :)

Dark kiss.

Vertigo disse...

Ahah,aí é que a festa deveria ter começado ;)

No final do texto,lembrei-me desta.

Um beijo grande,minha querida*

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
E não é ficção :) pois acredito que fazes, ou farias mesmo assim, um evento desta magnitude, mesmo com poucos "amigos", enquanto a mente, "tremente" e "deliquente" se passearia pelas ameias, olhando ao longe os recortes dos cavaleiros na paisagem...
Um beijo
Daniel

Morgana La Folle disse...

Mariazinha,

e eu adoro quando as minhas palavras despertam imagens que são "as nossas imagens" :)

Beijo*

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Klatuu,

a castelã não é intelectual. A inteligência emocional reina por ali...
Vai um javali assado? :)

Dark kiss

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Vertigo,

e se calhar começou, ela é que não estava lá :))

... e também fala sozinha!

Obrigada e um beijo grande para ti.

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Daniel,

fico sempre admirada com as coisas que dizes! :))

Um beijo

bat_trash disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bat_trash disse...

O corpo se vale também de conotações.As minorias têm fardos aparentes e privilégios sutis.
Sou canhota e estou ficando estrábica de fome.:)
Javali é bom?

Bat Kiss.

biazinha disse...

Também estou vesga de fome!
:)

Beijos.

PS: comentei o teu texto do Bar.

PPS: Tenho entrado menos na blogosfera, agora eu só entro pra postar e comentar os textos dos amigos.Estou na reta final do ano letivo

Anónimo disse...

Tive um sonho parecido com essa história, há muitos anos, que se repetiu depois. O que quererá dizer?

Gittana disse...

Hola... primera vez en tu pagina... no te preocupes, tengo un traductor en el trabajo... podre entender lo que tu escribe...

Morgana La Folle disse...

Bat,

é isso mesmo, morceguinha inteligente :)
Javali é bom, sim. Mas eu fico com pena dos bichinhos porque gosto deles :(

Beijos*

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Biazinha,

boa sorte para os exames, então -embora tenha a certeza de que estás preparadíssima, mas a sorte ajuda sempre.

Eu ontem fui ao Bar só para te responder. Ainda não voltei para te ler, mas não falho.

Beijo grande e saudades.

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Anónimo,

do teu sonho só tu poderás saber o significado.
Mas é engraçado, porque esta história é uma visão, uma espécie de sonho que tive acordada. Mas sei perfeitamente interpretar (o que nem sempre acontece com os sonhos!)

Morgana La Folle disse...

Gittana,

Hola. Gracias por tu visita y comentario.

MagnetikMoon disse...

A ironia da diferença desnuda o cavaleiro :)

Magnetikiss;)

bat_trash disse...

Tá muito sumida, hein, minha fadona!

:)

Morgana La Folle disse...

O que me vale, aqui, é a ironia :)
E o cavaleiro, que fica imperturbável com o estrabismo, o canho, e outras idiossincrasias.

Dark kiss

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Bat,

ando sumida sim! Ontem e hoje não vi blogs. Mas fui ao Bar, onde te falei :)

Bat kiss*

Lord of Erewhon disse...

A miúda na foto é a Vampirella... nada de assados, só bebe sangue... ;)

Dark kiss.

Morgana La Folle disse...

Lord of Erewhon,

pois, e os convidados podem ter sido um excelente "assado" para aqueles dentes afiados... ;)

Dark kiss

akasha disse...

Tu bem pareces a moça da imagem desse post....até o corte de cabelo.:)

Beijos.

Morgana La Folle disse...

Akasha,

foi por isso que escolhi esta! :)))

Bruxinha lindaa, tu.

Beijos*

gotika disse...

Ah!

Mas a minha jantarada não era nada disto. Até era tudo bem festivo e bem disposto, nada fora do lugar, todas as pessoas certas.

Morgana La Folle disse...

Aqui não, aqui há um desconforto muito grande, e constrangimento. Mas também não há nada fora do lugar: sou canhota ;)

bat_trash disse...

Também sou canhota...:)