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14 de abril de 2009


Moon Dancer by W. Kathleen

Os teus olhos eram caminhos de esquecimento. Eu sentia-me criança, demasiado pequena para tanta imensidão, mas gostava de te fitar e perceber em mim a vertigem; o medo de cair no fundo escuro e, simultaneamente, a vontade de saber se seria capaz de não me perder, de permanecer lúcida. Acabava quase sempre por sorrir, demasiado consciente do meu sorriso tão aflito, e de que, a seguir, teria forçosamente de gritar. E então, antes disso, tudo mudava.
Os meus olhos enchiam-se de estrelas, de recordações, de risos e de lágrimas. Tudo o que estava preso, apertado num grande nó que me ficava na garganta, a tornar a voz feia e as palavras assustadas, desatava-se, vinha dançar-me nas clareiras do ser, debaixo do céu, do olhar. Ressuscita os meus pés, pedia-te, pois quero também dançar! Mas tu nunca o fizeste. Creio que não sabias que aquilo era uma dádiva e não um pedido. O tempo fazia-se escasso, havia muita gente, muitas coisas mais concretas do que aquele meu aparente capricho, um pouco melodramático.

Os maiores tesouros passam quase sempre por ser pequenas bagatelas sem importância alguma. É fácil adiá-los até se tornarem muito longínquos, já só remotamente conhecidos por tradição oral. Contos de fazer sorrir quem os não viveu.
E parece-me ouvir uma voz lá muito adiante no tempo, contar:

Era uma vez uma rapariga que tinha os pés mortos...


© Fata Morgana

14 comentários:

Frankie disse...

Minha querida,

que bom ter-te de volta...a ti e às tuas palavras que parecem sopradas de outras eras :)*

Era uma vez uma rapariga que tinha os pés mortos...Um dia, aposto, haverá uma voz cansada de uma avó a contar aos netos uma história que começará exactamente assim.
Deixo-te um beijo imenso.
O texto é lindíssimo, como sempre.



PS: Eu pediria exactamente o mesmo :)

ParadoXos disse...

"Os maiores tesouros passam quase sempre por ser pequenas bagatelas sem importância alguma"


- esta é uma daquelas que me faz pensar... gostaria de ter sido eu a escrever isto!!!!


saudades.
beijos

andorinha disse...

Mais um belíssimo texto! Tão "teu":)

"Creio que não sabias que aquilo era uma dádiva e não um pedido."
Tocou-me, esta frase.

Saudades, amiga.
Beijo grande.

Morgana La Folle disse...

Frankie!

Gostei muito das histórias que a minha avó me contou, apesar de ela não estar cansada :) Ainda bem que imaginas que esta história da "Rapariga que tinha os pés mortos" possa ser contada por outras avós, sem ser a minha, aos seus netos!

Beijo grande para ti.

____________________________


Edu,

Não te preocupes... Esta é minha :))) Mas tu não precisas, tu tens arte e engenho para muitas outras frases fantásticas. Obrigada, Amigo, que bom teres vindo!

Um abraço forte.

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Andorinha,

pois é, as fadas quando fazem pedidos estão quase sempre a oferecer coisas :)
Mas são coisas que só se obtêm em "demandas".... Isso é bom!

Um beijo enorme e obrigada por teres vindo!**

luisa Paula disse...

Gosto quando vens ao meu canto porque sei que as tuas palavras nascem de uma fonte cristalina.
A criança que existe em ti jamais poderá ter os pés mortos :)

Um beijo grandeeee

Morgana La Folle disse...

Sempre que sou criança sinto, ainda, os pés vivos.
Mas eu cresci, Luisa, e a rapariga em que me tornei voltou as costas ao seu dom, matou os pés de bailarina, e eram as minhas asas de anjo.
A rapariga que me tornei, a mulher que sou, tem os pés mortos, sim.

Um beijo graaaaande :)

bat_trash disse...

Bom tê-la de volta. Nunca se sabe por quanto tempo.
Essa é a nossa Fata, mas ela sempre estará lá no Estreito de Messina esperando àqueles a quem devota o afeto.

Beijo grande.***

PS: O texto é lindo!
Concordo contigo: o que é mais importante sempre está discretamente escondido nas coisas aparentemente banais.
Embora não tenha conhecido o teu pai, lembrei-me dele ao ler o teu texto.
Vou aO Bar espreitar o texto de um certo moço ocupado.

Daniel Aladiah disse...

Querida Fata
Apesar das metáforas e "quejandos" :) da linguagem, não te vejo de pés mortos (não são de chumbo, pois não? :)), e até chegares a netos... :)))
Belo texto, como de costume, é um prazer ler o que escreves.
Um beijo
Daniel

Morgana La Folle disse...

Bat,

claro que eu ia voltar, nunca poderia ser de outro modo, eu sou daqui e do outro castelo também! ;)

E gosto muito de te ver por aqui :)

Dark kisses de boas-vindas para ti!*****

__________________________

Daniel,

a metáfora está bem aplicada, acredita, porque quem foi bailarina e não dança sente-se como se tivesse os pés mortos - por muito leve e gracioso andar que tenha :))

A avó... Ora! A avó não sou eu!!!! Pensei numa avó qualquer, daqui a muuuuitos anos, não em mim.

Beijo grande*

aquilária disse...

o rendilhado antigo da tua escrita, morgana... :)

por vezes, as coisas do mundo pesam dentro de nós de tal forma, que nos reduzem a isto, apenas: pés que já não sabem cumprir o seu sonho de dança, asas quebradas.

acredito que essa história será um dia contada e também acredito que será bela, mesmo que triste. julgo, porém, que o começo há-de ser um nadinha diferente:
era uma vez uma rapariga que julgava ter os pés mortos...um beijo, morgana. e obrigada. por tudo. (ando perdida entre tarefas a cumprir, em prazos que me parecem cada vez mais curtos, e...já sabes: emprestar o ombro, os ternos cuidados e o regaço a esses seres de olhos que suplicam um auxílio)

Morgana La Folle disse...

Também há aquela outra hipótese:
Era uma vez uma rapariga que tinha os pés mortos e por isso dançava com as mãos.
(Os recorrentes "gestos de rosácea"... acho que os tenho por causa disso).

Gosto muito desses seres, também :)

Um beijo muito grande*

Nilson Barcelli disse...

Já não danças com os pés, mas danças com as palavras.
Mas há outros pés a seguir as danças que ensinaste, e que voam, verdadeiros tesouros, ao som dos violinos a embalar os sentidos.
Mas deixa lá, não te lamentes, porque eu também arrumei os sapatos de escrever por causa das mudanças climáticas. Mas nunca soube dançar com eles...
Bom resto de semana,
Beijos.

Nilson Barcelli disse...

Cara amiga, para aprender a escrever com os sapatos é preciso ler estes dois posts (o primeiro já tinha sido publicado em 2005, mas esta versão é mais legível...)

http://nimbypolis.blogspot.com/2006/04/sapatos-de-escrever.html

http://nimbypolis.blogspot.com/2005/07/fotografia-difcil_07.html

Morgana La Folle disse...

Nilson & Nilson :)))

Pois, eu sei. Deitei sementes à terra, ajudei muitos músicos a fazerem-se (eles é que deram os passos principais para terem os seus palcos, claro).

Quanto aos teus sapatos de escrever, vou espreitar, pois. Lembro-me de ter gostado muito da primeira versão - mas isto será para comentar lá! ;)

Beijos*